segunda-feira, 3 de julho de 2017

Lugar de Fala, Lugar de Escuta


Após a leitura do livro "Prisioneiras" do Drauzio Varela, fiquei impactada por muitos assuntos tratados no livro. Começo pelo que mais me chamou atenção:

Por que o narrador da história das mulheres encarceradas em um presídio feminino de São Paulo teve que ser um homem, branco e não-preso?

Essa é um tema que já apareceu nas discussões GEBianas: o lugar da fala. A trilogia do doutor Drauzio Varela sobre o sistema carcerário no Brasil (Estação Carandiru, Carcereiros e Prisioneiras), divulgada ao longo dos últimos 18 anos tem uma grande importância - inclusive sendo transposta pra outras mídias, como filme e série televisiva, e traduzida para diversos idiomas. São obras de leitura gostosa e compreensão fácil, permitindo que um tema tão "não-mainstream" tivesse um grande alcance social. Mas o que está em questão não é a importância dos livros, mas sim por uma questão de percepção: a percepção da experiência carcerária é muito diferente para quem esteve preso, para quem trabalha no sistema punitivo ou para quem nunca teve contato com este mundo. Memórias do Cárcere expressa uma percepção muito diferente sobre a prisão do que Estação Carandiru apresentou - e não se trata apenas de uma questão de estilo. Contudo, essa diferença de percepção é ainda mais sensível em Prisioneiras, ao termos um homem construindo uma narrativa sobre mulheres.

Em diversos momentos o autor demonstra curiosidade (às vezes até um tom de espanto) em relação às relações afetivas existentes entre as mulheres, apontando as diferenças em relação ao que ele viu nas instituições voltadas a presidiários. Será que teríamos um peso tão grande para as relações afetivas se a narradora do livro fosse uma mulher? E se tivesse sido prisioneira, será que não haveria um foco maior na relação com os carcereiros homens (e será que não houve nenhum relato de maus tratos de carcereiros e carcereiras sobre as prisioneiras?) do que nas relações afetivas Entre as presidiárias?

Em entrevista recentemente divulgada no site Huffpost, Lázaro Ramos aponta o seguinte (e vou transcrever, porque achei muito legal a colocação dele):

"Geralmente, quando se fala em questão racial e quando tem um não negro que não quer escutar sobre esse assunto, ele fala também de alguma dor que teve: "ah, mas eu também passo por isso", "eu também sofri isso em determinado momento", negando o assunto e negando o ouvido. Acredito que a escuta é um lugar muito importante dos não negros para entender os outros lugares. Não que ele precise anular a sua dor. As dores estão aí e elas precisam ser trabalhadas. Mas o não negro precisa entrar em contato também com a escuta. Geralmente um não negro percebe a sua branquitude quando um negro, através da sua dor ou seu incômodo, provoca algum incômodo nele. Só aí a pessoa levanta e percebe. Eu acho que isso deveria ser um trabalho diário e natural. A questão da discriminação não deve ser um problema apenas dos negros. Essa é uma questão que faz parte da construção de país, da construção das nossas humanidades, da potencialização das nossas relações políticas e culturais. Pensar na questão racial é pensar em potência, em energia criativa, em energia tecnológica, em potência cultural."

A questão do lugar de fala e do lugar da escuta é muito importante, não apenas para o debate sobre não-prisioneiros escrevendo sobre prisioneiros (e Prisioneiras), mas também para o debate sobre não-negros falando sobre negros (e que diferença de perspectiva sobre Dear White People, que vi Ainda poucos episódios, e todas as outras séries que trazem dilemas da vida universitária americana, não acham?).

Falta interpretação de texto (como diria o Sakamoto). Falta percepção. E, acima de tudo, falta empatia.

Como bem colocou Lázaro Ramos, empatia e percepção são trabalhos diários e naturais, um exercício cotidiano para percebermos nosso lugar de fala, quando é o momento da escuta e quais são os pré-conceitos que precisam ser desconstruídos - e construídos, conforme o caso.

A leitura de Prisioneiras me colocou essa discussão: do lugar de fala de um médico Branco, não-prisioneiro, falando sobre a vida de Prisioneiras. Mas também me despertou a reflexão sobre o lugar da escuta. A minha percepção sobre as narrativas de mulheres que vieram de classes sociais, vivências e valores muito diferentes dos meus e acabaram sendo presas (e quantas não cometeram mais Crimes e por mais tempo do que aquelas condenadas, mas estão em casa, seja pelo indulto da prisão domiciliar [sim, estou falando da Adriana Ancelmo], seja por questões da burocracia penal [sim, estou falando da Claudia Cunha]) é muito diferente da percepção de quem já passou/trabalha pelo sistema penal. Me impressionou muito a diferença no número de visitas Entre encarcerados e encarceradas - e sobre como o julgamento moral das famílias é muito mais duro para mulheres do que para homens - mas será que eu ficaria tão espantada se meu lugar de escuta seria outro?

A leitura de Prisioneiras me trouxe muito forte a reflexão do lugar de fala e do lugar de escuta, e adoraria escutar (e falar, rs) com os demais colegas GEBianos sobre este tema. Mas também me chamou muito a atenção os seguintes temas:

  • A importância das facções na organização da prisão feminina;
  • A prisao como local de liberdade para q as mulheres realizem suas fantasias sexuais;
  • Como a política de combate às drogas foi mais cruel com as mulheres; 
  • As facções criminosas como uma "ideologia do crime" mais eficiente para manter a paz nas cadeias e nas comunidades do que o Estado;
  • A prisão de uma filha ou da mãe envergonhe mais do que a de um filho ou do pai, já que a expectativa da sociedade é ver as mulheres “no seu lugar”, obedientes e recatadas. O preconceito sexual faz parte desse contexto. O bandido pode ser considerado mau-caráter, desalmado, perverso, mas ninguém questiona sua vida sexual. A mulher, além dos mesmos rótulos, recebe o de libertina - muito pior nessas comunidades (Posfácio)


Essas foram as questões que mais me chamaram atenção na leitura de Prisioneiras e gostaria de ouvir esses temas debatidos no GEB hoje. Esses foram os temas que - do meu lugar de escuta - mais me chamaram a atenção neste livro.

Nuance e Militância - Cara Gente Branca

O certo seria escrever um textão por episódio de Cara Gente Branca. Mas vou escrever só um textinho mesmo.

O grande mérito dessa série, comparada ao acumulado de produções anteriores sobre o tema, na minha opinião, é abordar as nuances. É comum o racismo aparecer nas artes de maneira romantizada, com situações claras de opressão. Mas em Cara Gente Branca as nuances e sutilezas, tanto do racismo quanto dos conflitos e suas possíveis soluções, são a parte principal do enredo. Elas aparecem em outras obras, mas talvez não tão problematizadas quanto nesta. As diferenças de abordagem e de pontos de vista mesmo sobre a questão racial dentro do movimento e entre suas subdivisões; a questão do amigo/ namorado branco e sua posição; o humor; as interseções da questão racial com gênero e sexualidade. Até mesmo a questão do financiamento das universidades nos EUA é pincelada. Isso tudo é mostrado a partir de situações articulando conflitos individuais e coletivos/sociais. É de fato uma série genial. 

Me chamou atenção o olhar que é dirigido ao namorado branco de Samantha White. Quando ele chega para acompanhá-la numa reunião, ele recebe olhares reprovadores, também dirigidos a ela, por namorar um branco. Isso vira uma questão. Será que todo o branco representa todo o racismo?


Mas o que me salta aos olhos, e eu acho que talvez seja um dos pontos de onde nossa discussão pode partir, é a especificidade da questão racial nos EUA e sua comparabilidade com o racismo à brasileira. O Risério já tinha apontado algo assim, como de certa forma alguns setores brasileiros se baseiam na noção racial americana da “gota de sangue”. E que isto seria artificial e “colonizado” no Brasil, já que aqui a gente trabalha mais com miscigenação. O racismo não é tudo ou nada, segue gradações de acordo com a tonalidade da pele. Outro ponto que merece destaque é que nos EUA a população negra não chega a 15%, e no Brasil ultrapassa 50%. Ainda assim, que universidade brasileira teria negros em número suficiente para criar uma comunidade como a casa onde vivem os personagens principais da série? Será que esse modelo de comunidade se aplica no Brasil, onde a mistura costuma ser o caminho? Será que a mistura ainda é o caminho escolhido pelos brasileiros? A hipótese da miscigenação pode ter perdido força desde Gilberto Freyre; e o racismo tem aparecido com mais força conforme os avanços sociais se consolidaram e, agora, são ameaçados. Na minha opinião, ainda não vivemos o período mais acirrado do racismo brasileiro. Quando o negro está na senzala, longe, é fácil não enxergar o próprio racismo. A distância tampona o conflito e o preconceito. Ele aparece mais quando o negro chega na faculdade, no avião, quando o médico ou o professor universitário são negros.

Da Destruição da Cidadania

De início torci o nariz para a forma um tanto debochada com que o autor se refere a determinadas práticas das presas, como as orações e louvores em voz alta. Depois essa resistência minha foi cedendo, para dar lugar a uma grande admiração. Dráuzio se coloca. Apesar de dizer no epílogo que é avesso a religiões e ideologias, mostra-se extremamente humano, confessando alguns erros e tropeços e, principalmente, colocando as próprias opiniões.

Logo no começo, quando fala da hierarquia e organização dos presídios, e depois quando descreve os “tipos”, salta aos olhos o machismo — não o do autor, que nem vi aparecer tanto, mas do próprio esquema de poder lá dentro. Mesmo num presídio feminino, o machismo se reproduz intensamente. De cara, com o comando masculino da facção que organiza a vida das presas. Talvez isso não seja apenas reprodução de machismo, mas machismo puro e simples. O impressionante de verdade é como as classificações das relações homossexuais seguem padrões machistas e opressores, que determinam as interações sociais dentro do presídio. Quanto mais comportamento macho tem a mulher, mais respeitada. Em paralelo, corre a homofobia no organograma do PCC, que não admite que seus integrantes tenham histórico de comportamento homossexual.

Coirmão do machismo, o autoritarismo é impressionante, como forma de manutenção da ordem. A passagem em que Varella compara o código penal do PCC com o do Estado organizado mostra como o autoritarismo é eficaz em manter a ordem em ambientes fechados, ao mesmo tempo em que a celeridade dos julgamentos e execuções admite erros como parte do processo.

Impossível não articular “Prisioneiras” com “Vigiar e Punir”, de Foucault. Essa articulação se impõe em uma passagem que diz “só um irmão virou cidadão”, ou algo parecido. Essa frase é dita por uma presa que fala que toda a sua família, de uma forma ou de outra, se envolveu com o crime. A frase é emblemática no sentido de colocar claramente que o preso deixa de ser cidadão. A punição deixa de ser relacionada ao ato, apesar de assim ser colocada nos códigos, e passa a ser biográfica (vide Foucault). A passagem pela prisão passa a ser definidora de uma vida ligada ao crime, à exclusão da cidadania. Do lado de fora, a vida é uma merda, tanto antes quanto depois de ser presa. Dentro pode haver alguma organização se as leis severas do comando forem respeitadas.

Além de machismo e autoritarismo, para completar a tríade na organização do comando, entra o capitalismo. Vários pontos-chave no organograma e processos de trabalho do PCC estão em absoluta consonância com o caminho do verdadeiro livre mercado. O controle dos processos pela força, a tendência ao monopólio, formação de carteis e destruição da concorrência. Dráuzio deixa claro que mesmo o que pode ser enxergado como uma contribuição benéfica da instalação do comando do PCC — como a proibição do crack nos presídios e da execução de presos — são na verdade decorrentes de decisões baseadas em estratégias e táticas visando à preservação e ampliação do negócio. Assim como a função nominal do presídio de proteção da sociedade e recuperação do cidadão encobrem vingança e destruição da cidadania, o lema livre concorrência e equilíbrio do mercado escondem vantagens injustas e busca incessante do lucro e do monopólio.

A facção organiza a vida dentro do presídio. O Estado é incapaz de fazê-lo, ou simplesmente não quer. O presídio é o resultado não de um projeto de reintegração das presas ou de proteção da sociedade, mas um dispositivo de vingança punitiva. Num dos últimos capítulos de Vigiar e Punir, Foucault fala sobre o fato de a prisão já ter nascido necessitando de reforma. Desde que nasceu a primeira prisão se fala em reformular o modelo. A partir daí, muito se fala na ineficácia dos presídios e cadeias em geral, mas temos de pensar, como propõe Michel, o Foucault, onde está a verdadeira eficácia das prisões.

A prisão é eficaz em destruir pobres e negros.
A prisão é eficaz em produzir mais criminosos e mais graves.
A prisão perpetua a pobreza e as privações por que passam as famílias pobres.
A prisão encarna o desejo de vingança do brasileiro, criando mais destruição do que a simples morte, pois ela se dissemina pelas gerações.
A prisão, entendida como prolongamento do judiciário, funciona como mais um fator de exclusão do pobre e proteção do rico, pois os códigos — penal, de processo, criminal, implícitos ou explícitos — contêm, também desde o nascimento, uma pletora de detalhes e brechas sujeitos a interpretações diversas a serem interpretadas por juízes de maneiras diferentes a partir de quanto se pode pagar por um bom advogado, da cor da pele e da origem social do acusado ou condenado (papeis que podem já vir fundidos em muitos casos). Ainda em Vigiar e Punir, Foucault evidencia também a eficácia da prisão em valorizar a pequena delinquência, encobrindo a grande delinquência, que pode ser representada pela própria estrutura excludente da sociedade, das leis injustas e de seu cumprimento e interpretações ainda mais injustos, do controle do poder pelo capital. A realidade mostra isso quando um helicóptero com meia tonelada de maconha fica sem dono, e um zé-povinho pego uma qualquer quantidade pode ser considerado traficante e preso, com as consequências biográficas que a experiência no cárcere implica.

A obra gebiana à qual a comparação com Prisioneiras aparece mais diretamente é “O Dono do Morro”, de Misha Glenny. A favela, assim como o presídio, está sujeita aos desmandos de uma organização de poder “paralelo”. A diferença é que no ambiente fechado do presídio o controle é forte o suficiente para impedir a entrada de crack. Pode ser que em algumas favelas haja proibição ao crack eficaz, mas não sei.

Comparando os autores, o relato jornalístico e cuidadosamente distante de Glenny ao descrever a história de Nem, mesmo com seus muitos adjetivos, contrasta com a maneira pessoal com que Dráuzio relata sua própria experiência como médico no meio das presas. Varella não só descreve as situações, mas conta suas mancadas, erros de juízo e, acima de tudo, opiniões. Diferentemente de Glenny, Dráuzio critica frontalmente a política de guerra às drogas, com argumentos fortes e colocados de maneira muito compreensível.

No epílogo de Prisioneiras, o segmento que poderíamos chamar de mais autoral do livro, Dráuzio coloca a própria história, mesclando-a com uma síntese absolutamente clara do que se sabe sobre os fatores de risco ligados ao aumento da criminalidade e da futilidade das medidas tomadas pelo Estado até o momento para lidar com o problema, não só da violência, mas também do aumento da população encarcerada. O epílogo é a pérola do livro. Além de problematizar as situações sociais, econômicas e culturais, no plano macro, Dráuzio se coloca no particular de sua condição de médico, e mesmo na singularidade de sua vivência com cada presa, ouvindo as histórias e entendendo, ou tentando entender como estabelecer algum contato de qualidade com aquelas pessoas para exercer algum poder de cura, melhora ou alívio de sofrimento. 


segunda-feira, 29 de maio de 2017

O Estigma.

Estigma. O estigma teve diversos significados ao longo do tempo, nos dias atuais pode refletir "a situação do indivíduo que esta inabilitado para a aceitação social plena" conforme definido por Goffman. Ainda de acordo com Goffman, a sociedade estabelece os meios de categorizar as pessoas e seus respectivos atributos. Assim, formam-se atributos estruturais de uma "identidade social" que incluem elementos físicos, comportamentais e etc., que acabam por pré-conceber a visão que temos uns dos outros. Inconscientemente (ou  não), fazemos isso muitas vezes, reduzindo os desconhecidos a estigmas que carregamos desde cedo pela nossa formação.

Moonlight trata de dois estigmas da sociedade atual: o negro e o gay. No caso do personagem, ambos os estigmas são sentidos de formas diferentes. Como negro, nascido em uma comunidade pobre , é muito difícil fugir da sua realidade e consequentemente do estigma que a sociedade impõem. Como gay, engolir seus desejos mais profundos por outros homens é tentar fugir do segundo estigma que a sociedade iria impor a ele.

No filme a 13a emenda, fica muito claro que a sociedade americana nunca quis incluir o negro, já o colocando como criminoso desde que a escravidão foi abolida. Mais de 100 anos depois, esse estigma se alastrou e séries como Dear White People, mostram o quanto perverso e cruel essa identidade social traçado pelo homem branco  pode (continuar) ser nos EUA.

No Brasil não foi elaborada uma 13a emenda, mas o negros não foram incluídos, sendo marginalizados ao longo de todo esse tempo. Empobrecido, viu seu futuro estar atrás das grades, em condições péssimas de moradia e quase zero assistência de um Estado que muitas vezes é o seu próprio algoz.

Olhar em volta e saber que há estigmas em tudo e todos, pela simples razão das sociedades terem uma obsessão em categorizar aquilo que é diferente é pensar que ainda estamos mais perto de situações como o nazismo, já que o número de mortes de negros e gays no Brasil e nos EUA devem estar chegando perto (e deve ultrapassar) aos mortos durante o tempo das trevas na Alemanha.

Se você for um gay, branco com dinheiro… está tudo (quase) certo. Para quem é branco, não tem empatia que salve… a verdade é que nunca saberemos o que é ser negro, o que é ser marginalizado, o que é ter que ser perfeito o tempo todo pra mostrar o seu valor (e mesmo assim, muitas vezes ser rejeitado).

E, mais do que isso, existem negros (e gays) sentindo vergonha do que são e não conseguindo assumir sua identidade, ou pior, se comportando como brancos (e héteros) para se sentirem mais aceitos. Existe uma falsa ideia de que avançamos. Mas como? Se as mortes aqui e nos EUA não param de crescer?


O que existe é a continuidade de uma luta, o que existe são mais meios existentes para que essas causas possam ser ouvidas.  Contudo, ainda estamos muito longe dos estigmas (de qualquer tipo) serem uma barreira invisível de nos enxergarmos enquanto seres-humanos.

A Ausência da Palavra

Gostei muito do filme como obra, diferentemente de 3%, que chamou mais atenção pelas discussões do argumento do que pelo resultado estético.
Ainda não assentaram em mim todas as impressões e veredas abertos pelo filme, faz pouco tempo que vi. Mas conforme o tempo passa, e conversando com algumas pessoas, acho que vale a pena pensar em alguns pontos.
Na primeira parte da história, chamada de Little, o apelido de Chiron na infância, fica evidente a falta de referência familiar. Não me lembro de em algum momento ter sido mencionado um pai, ou até mesmo uma avó. A única referência familiar é a mãe, que mostra ter problemas com drogas e nem sempre poder estar presente da maneira que o filho precisa, como para perceber que ele está sofrendo na escola e precisa de ajuda. O filme não mostra a mãe sendo convocada ou participando de uma reunião.

Nenhum estudo deixa de mostrar a importância da presença da família como índice de envolvimento na escola e de protetor contra vulnerabilidade social das crianças. A presença dos pais qualifica a infância na maior parte das vezes. Por isso eu acho que o transporte público não é só uma questão de facilitar a vida prática das pessoas e seus deslocamentos, mas uma ferramenta importantíssima na promoção de qualidade de vida para crianças e redução de desigualdade. Pode-se considerar o tempo gasto no trajeto do trabalho para casa um roubo de tempo de crianças que precisam de seus familiares.

Um detalhe que eu sempre reparo em muitos filmes de que gosto muito — principalmente daqueles de que descubro que gostei muito a posteriori —, é na riqueza de informações extra-diálogo. De cara, a ausência de personagens brancos salta aos olhos, mas jamais é posta em questão. Diferentemente disso, a ausência de diálogo é uma característica do personagem principal.

Chiron, ou Black ou Little, não tem na palavra sua principal forma de relação com o entorno. Juan (o traficante interpretado por Mahershala Ali, que fez o lobbyista Remy Danton em House of Cards) de alguma maneira percebe isso e resolve usar o Entorno per se, o que há de mais precoce e bonito de todos os entornos que a vida já teve — o mar. A água do mar, esse amnios ontológico inescapável, cria o meio de contato afetivo entre Chiron e o mundo, e sua referência, Juan. Juan desaparece do filme após cumprir este papel, deixando Theresa, a mulher que fica, como ponto de apoio para a criança.

Além da óbvia cadeirada, outro recurso não-verbal usado por Chiron para se relacionar com o mundo é o corpo. Os corpos têm esse papel para todos nós, embora uma cerebrização do modo como a humanidade ocidental se vê — o que talvez Winnicott* chamasse de supervalorização da mente em oposição ao psicossoma —, para Chiron vira uma estratégia de sobrevivência. Nada se fala do período entre a detenção pós-cadeirada na Flórida e como ele se estabeleceu traficante na Georgia, mas foi ali que ele saiu de um garoto franzino e assustado para se transformar em um homem corpulento, forte para aguentar o que a vida vai colocar em seu caminho. Que usa uma espécie de aparelho metálico no dente, talvez inicialmente pensado como ostentação, mas que dá impressão de força e resistência. Que ele tira quando vai comer perto do amigo.

A prisão é um destino frequente para pobres negros nos EUA, assim como no Brasil. Pelo jeito que o nome da prisão é mencionado na conversa (ou quase conversa) que Chiron tem com o amigo já mais velho, fiquei com a impressão de que era uma realidade muito próxima. Pode ser que muitos familiares de Chiron estivessem na prisão, e por isso não apareciam. Se Juan foi preso, nós não sabemos, mas se Theresa fosse presa, aí Chiron ia ficar ainda pior do que já estava.

Enfim, muitas outras veredas são abertas no filme, e certamente muitas mais só vou conseguir perceber quando assistir novamente a ele.


*pediatra e psicanalista inglês, morto nos anos 70. Psicossoma foi o nome que ele deu a um funcionamento conjunto da psique e do corpo (soma), em oposição à dualidade mente/corpo. Para ele, mente seria algo como o funcionamento racional do pensamento, afastado de sensibilidades e do corpo.

Moonlight - fragmentos

·         Só tem atores negros
·         Branco mal aparece como figurante, na cena do restaurante. Este tratamento é similar ao que os filmes brancos costumam fazer, só que ao revés.
·         Não é diretamente sobre racismo, nem sobre homossexualidade
·         É sobre a corporeidade, sobre o corpo negro
·         O corpo negro a serviço de que, a serviço de quem?
·         Little: o corpo frágil que ‘não combina’ com os negros, que têm de suportar o rojão da existência mais do que os brancos;
·         Juan: o corpo negro a serviço da morte;
·         Teresa: o corpo negro fetichizado e hiperssexualizado;
·         A mãe: o corpo negro consumido pelas drogas, devastado;
·         Chiron adolescente: o corpo negro que, ativa ou passivamente, só conhece a linguagem da violência; Mesmo o amor é respondido com violência.
·         Black: o corpo negro brutalizado; O jovem adulto usa a academia e os músculos como escudo para uma fragilidade interna; o corpo negro está fechado, blindado, comprimindo no peito os sentimentos, escondendo uma sensibilidade que não é percebida como positiva.
·         A quem é dado o direito de ser sensível?
·         Talvez Chiron nem seja gay.
·         Os bloqueios à sensibilidade e aos exercícios do afeto nem sempre são explícitos, são tácitos.
·         Um corpo negro sempre em fuga [da mãe, da escola, dos amigos, da polícia]
·         Chiron não é o homem negro. É um homem negro. Não é um filme genérico sobre a negritude, mas a história de alguém, idiossincrática, que é atravessado pelas condições de ser preto, ter uma mãe viciada, ser percebido como gay, etc.
·         O corpo negro, desacostumado a ser sujeito de si mesmo, demora a se perceber.
·         O corpo negro precisa encontrar as condições para a sua própria satisfação, inclusive sexual.

·         Para o corpo negro, os caminhos não estão abertos.

A cracolândia do sublime





Concordo que não seja um filme sobre o racismo. É no entanto um símbolo poderoso da luta contra o racismo. Um filme só com pretos que ganha o Oscar e força milhões de espectadores racistas e homofóbicos que vão ao cinema por causa do Oscar a assistirem (pelo menos uma parte, até saírem revoltados da sala) um filme de sensibilidade impar e de humanidade suave e sublime.

No passado o cinema precisava de histórias de redenção, onde o protagonista saia de um lugar ruim e passava por uma série de desafios e obstáculos para chegar a um lugar melhor. Dos anos 60 pra cá essa abordagem Didática e moralista foi cedendo lugar a uma visão mais realista e humana na qual ser bom ou mau depende das circunstâncias em que nos encontramos e não se trata mais de uma dicotomia atávica. O mau pode ser bom às vezes e o bom mau também. É possível um filme em que uma criança encontre amor em um traficante e se torne ele próprio traficante apesar da mãe viciada. Ele começa no fundo do poço e não sai dele. A história é uma história de sua humanidade. O roteiro não está mais tão preocupado com a narrativa “externa” mas com a narrativa interna. O percurso que um individuo, oprimido, perseguido, sem figura paterna clara e com uma mãe dependente faz para encontrar a si mesmo. Para fazer as pazes com sua sexualidade.

Presta um enorme serviço a causa gay dado que não é muito comum ver traficantes ‘malvados’  sendo humanos, gentis e carinhosos. Muito menos sendo gays.  O reencontro dele no bar com o amigo com quem iniciou sua vida sexual é desconcertante da dificuldade de comunicação, timidez, fragilidade do pequeno Little que retorna com força no homão que Black se tornou. É tão bonito.

Não consegui encontrar metáforas bonitas como a dos quatro elementos que o Pablo Vilaça identifica, ou a força da água na gestação de um novo homem. Sinto, no entanto, que a reflexão sobre a questão da sexualidade é muito mais complexa em ambientes ‘macho’ onde o estado de natureza é a norma na relação com os indivíduos. Demonstrar força é incompatível com a percepção generalizada sobre o homossexualismo. Para gays em contextos agressivos e pouco acolhedores a questão deixa de ser uma escolha e passa a guardar relação com a sua sobrevivência. Mais uma exclusão dentre tantas outras já vividas cotidianamente. Em tempos de ‘internação compulsória’  Moonlight é um grito de humanidade que pode subsistir nos contextos mais embrutecidos da existência.




Eu queria mesmo era escrever sobre “As prisioneiras”. Tem muita relação com esse filme, mas como ninguém leu, vou me abster e adiar esse prazer.