Preguiça. Minha primeira impressão sobre o livro foi que houve preguiça do autor e dos editores em fazer um trabalho mais esmerado na transformação da tese em livro. Pelo que entendi, a principal mudança foi na ordem das partes: ele coloca a análise e seu resultado, que bitcoin não é dinheiro, antes da revisão teórica. Isso exigiria, a meu ver, uma adaptação melhor das informações apresentadas. A linguagem do livro é excessivamente acadêmica e desnecessariamente rebuscada, mesmo para uma tese.
Dessa forma, ele não cumpre um papel que considero fundamental quando se transforma um trabalho acadêmico em livro: tornar o assunto e a pesquisa mais palatáveis para o público fora da academia, ampliando o acesso. Não foi isso que aconteceu. Além disso, o excesso de notas de rodapé não traz fluidez a um texto que se propõe a sair da torre de marfim. Fiquei levemente constrangido com algumas tentativas de rebuscamento da escrita, que acabaram esbarrando em traduções de expressões estrangeiras (“desde” tal ponto de vista; “joga” um papel) ou em formulações um tanto distantes do que eu consideraria compatível com o nível que ele parecia pretender atingir, como “enquanto tal” ou algo assim. O resultado às vezes parece um simulacro de escritor do século XIX: ele dá a impressão de querer escrever como Marx (ou como seus tradutores), mas não consegue. Também me incomodou muito o uso, aqui e ali, de construções que talvez funcionem em francês, mas que, em português, dificultam a compreensão quando acumulam negações. Uma boa revisão não deveria deixar passar uma frase do tipo: “Não seria impossível não considerar a ausência de tal elemento como resultado de outro fator que não por meio do conceito x”. Uma pena.
Isto posto, adorei o livro (risos). O incômodo com a tentativa de rebuscamento não me impediu de fruir o texto, ainda que com algumas reviradas de olhos ao longo do caminho.
Uma das principais características que compõem a riqueza desse texto é, a meu ver, a quantidade e a qualidade das referências. Logo no começo, ele cita uma obra de Harvey (Neoliberalismo: História e Implicações) e outra de Laval e Dardot (A Nova Razão do Mundo), livros fundamentais para a compreensão do neoliberalismo. O segundo, em particular, me interessa mais, porque mostra como o neoliberalismo contribui para moldar não apenas as relações de troca e produção, mas principalmente nossa subjetividade, isto é, o modo como nos tornamos sujeitos. Para isso, o conceito de sujeito-empresa é importantíssimo, pois passamos a nos comportar como empresas na nossa relação com colegas, familiares, arte etc. Ele também menciona marginalmente Foucault, que influenciou muito a obra de Laval e Dardot, especialmente em um curso no qual trata das origens do neoliberalismo. Vale a pena ler.
Essa captura da subjetividade pelo neoliberalismo dá ao capital e ao pensamento conservador uma hegemonia quase inquebrantável, “configurando um novo ‘senso comum’, uma nova cognição política frente à qual todos devem se reposicionar” (p. 45, grifo meu). Nesse sentido, não adianta apenas mostrar as falhas do capitalismo como um todo, nem as fragilidades de certos preceitos do pensamento liberal na economia — principalmente o sacrossanto “controle de gastos”. Não se trata de falta de fatos, a questão é cognitiva.
Desde o início, então, Edemilson mostra que não vai se limitar a referências da economia. A obra toda é perpassada por uma ênfase no aspecto político da formação do dinheiro — ou de qualquer conceito econômico —, aproximando-se também de seus aspectos ideológicos e subjetivos.
A partir daí, ele faz o que considero uma excelente revisão da teoria do dinheiro. Isso me faz pensar no quanto esse livro dialoga com Dívida: os primeiros 5 mil anos, de David Graeber, que traz uma história do dinheiro do ponto de vista antropológico e é uma delícia de ler. Também penso que deve ser interessante articulá-lo com Capital e Ideologia, do Piketty, que eu ainda não li, mas que elabora as ideologias que sustentam as desigualdades ao longo da História.
Nessa revisão da teoria do dinheiro ele traz conceitos de Marx que são importantíssimos, não apenas aqueles relacionados diretamente ao valor, mas também o fetiche. A compreensão desses conceitos é necessária para não ficarmos presos às armadilhas conceituais do neoliberalismo. O conceito de sobredeterminação também é central e serve de base para explicar as interações entre fenômenos, noções da economia e da política na visão de Marx. Isso ele escreve muito bem, ainda que com mais rebuscamento do que o necessário, repito.
Nesse ponto, pensei também em como os bitcoiners são quase uma espécie de seita. Eles parecem justamente “enfeitiçados” — e fetiche e feitiço são quase a mesma palavra — pela promessa anarquista e igualitária do dinheiro como mercadoria isolada, uma espécie de retorno aos velhos e bons tempos do padrão-ouro. Não sei se vocês já tentaram conversar com algum bitcoiner inveterado, mas é praticamente impossível alertá-los para os riscos. Recentemente, aprendi que a opinião das pessoas não se forma a partir de fatos, mas de convicções; por isso, dificilmente dados reais bastam para convencer alguém. Edemilson explora muito as contradições dos processos, inclusive dentro da história do bitcoin. Mostra que os preceitos ideológicos por trás da criptomoeda apenas parecem libertários, mas acabam provocando uma concentração inescapável de decisões e de posse dos bitcoins. Cai, assim, a utopia do dinheiro apolítico: ele não é dinheiro e tampouco é apolítico.
Também gostei muito da parte em que ele trata da relação entre Estado e capitalistas, ponto fundamental para desconstruir a tese do Estado mínimo que frequentemente acompanha o discurso neoliberal. Medidas de “independência” ou de caráter “técnico”, como a infame independência do Banco Central, escondem que o banco central dito independente é dependente de regras anteriores, escritas ou não, e de valores implícitos nas relações de poder, historicamente enviesados no sentido da concentração de renda e patrimônio.
Voltando ao bitcoin, Edemilson costura muito bem questões tecnológicas dos últimos anos a noções e conceitos do século XIX. E o faz de maneira séria e detalhada, sem recorrer a termos genéricos como “inovações e o fenômeno internet” e sem sacralizar o conteúdo dos grandes pensadores sobre cujos ombros se apoia. Alguns deles eu conhecia; muitos, não. Deu vontade de conhecer a obra de Brunhoff, uma rara voz feminina no pouco que conheço desse campo — que não é o meu, risos.
Em resumo: uma tese ótima, que merecia uma revisão e uma edição mais cuidadosas para se transformar em um livro capaz de expandir o acesso a essa pesquisa séria, cuidadosa e necessária.