sábado, 10 de setembro de 2016

"Todo Camburão Tem Um Pouco de Navio Negreiro"



Caetano e Bethânia recitam/cantam O Navio Negreiro, de Castro Alves

Apesar das quase 1000 páginas do livro Um Defeito de Cor, da Ana Maria Gonçalves, a leitura avança rapidamente. O início é bem violento, com “cenas fortes”, e confesso que tive vertigem ao ler o ataque dos selvagens à família da Kehinde. Fiquei curiosa em ler sobre a história da África, suas guerras e sobre como surgiu o tribalismo.

Quando Kehinde revelou que aqueles escritos eram uma “carta” para o filho desaparecido passei a considerar a narrativa em primeira pessoa um equívoco, porque comecei a me incomodar com a impossibilidade de tantos detalhes serem lembrados. Afinal, tinha sido até ali um livro com descrições minuciosas de conversas, rituais, paisagens, vestimentas, arquiteturas etc, em um volume gigantesco de informação. No entanto, antes da revelação, a primeira pessoa teve papel decisivo na criação de empatia em mim, e o relato da própria Kehinde me fez entender que a escravidão não ocorreu com uma “massa” humana sem rosto e sem alma. CADA pessoa arrancada da África tinha gostos, história, casa, objetos, parentes, amores, sonhos, crenças, rituais, saberes, vizinhos, identidade, assim como eu. E que isso tudo lhes foi extirpado aqui no Brasil, restando somente sentimentos como medo, desespero, saudade, ódio e outros que não me foi possível sentir nem imaginar por não ter estado lá. Foi um exercício muito doloroso.

Mais doloroso ainda foi lembrar que os negros até hoje são vistos como uma massa humana indefinida, e que ainda não enxergam sua identidade, sua história e atiram para matar. Quando a prefeitura impede que ônibus de regiões mais pobres - e mais negras, por consequência - cheguem até as praias com o discurso – apoiado pela elite – de evitar arrastões, indicando que, para o poder público, existe uma massa negra TODA criminosa. Não há espaço para individualidade do negro. Não importa seu caráter, quantas pessoas já ajudou, quanto troco errado já devolveu, quanta violência policial já sofreu, quantas pessoas já viu serem mortas pelo tráfico, quanto medo de bala perdida já sentiu em casa durante tiroteios, quantos dias foi pra escola com fome e teve lá sua única refeição do dia, o quanto lutou para conseguir estudar desnutrido, quantas vezes já foi expulso de restaurantes, mesmo podendo pagar, por estar maltrapilho, quantas vezes já resistiu ao aliciamento de traficantes oferecendo “trabalho”, quantos amigos de infância foram mortos, o quão pouco ganha em seu subemprego, quantas crianças órfãs já ajudou a criar em sua comunidade etc. Nada disso importa, somente a cor da pele.  É como se ela disparasse uma mensagem contra si própria: “Atira!”.


Algumas dúvidas que surgiram:
  • Muito mais homens que mulheres africanas eram trazidos para o país. Este arranjo demográfico não-natural teve algum efeito social significativo na população negra cativa da época?
  • Kehinde fala que os escravos evitavam se casar por medo de serem separados em uma venda. Será que isso explica, pelo menos em parte, o baixo crescimento demográfico da população negra cativa?
  • Fiquei curiosa sobre a dita "superioridade” dos muçurumins em relação aos outros negros e gostaria de saber como eles tinham acesso à educação formal em África e os outros não.

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Um sonho de liberdade

Atenção, esse texto contém spoilers.



O livro “Um defeito de cor” tem a dupla função de contar uma história envolvente e ao mesmo tempo abordar questões sociais importantes sob uma ótica diferente daquela que habitualmente se encontra nas obras clássicas sobre o período da escravidão no Brasil.  Sobre os aspectos históricos, a partir do livro pude descobrir várias nuances dentro da condição de escravidão. O escravo que compra a alforria, o escravo de ganho, o escravo ou ex-escravo que tem escravo, o escravo que consegue montar negócios. Curioso pensar nos direitos que os escravos tinham e de como, mesmo nessa condição miserável, parecia haver alguma possibilidade de melhora de vida para eles. Interessante a dinâmica decorrente da existência da ajuda mútua, nos consórcios de alforrias, e também interessante pensar na "exploração mútua".
Um outro aspecto que para mim foi um dos mais positivos e enriquecedores do livro foi a possibilidade de contato com a religião africana, o que nos leva a perceber os acontecimentos a partir de uma outra interpretação do mundo. Embora a personagem, no seu processo de colonização, tenha aderido ao sincretismo com o cristianismo, permanece durante toda a narrativa um jeito meio africano de dar sentido aos fatos. Isso cria um certo misticismo que paira no ar a todo momento da leitura.  Em alguns trechos, inclusive, a narrativa adquire um quê de fantasia. O livro também transmite certo encantamento com alguns aspectos da cultura africana. Percebi o cuidado em descrever os rituais religiosos e achei belíssima a descrição do momento em que a personagem tem contato com a capoeira. Também gostei de saber da existência dos escravos muçulmanos e da discriminação que havia em relação a eles. Aliás, mesma discriminação também relatada na diferenciação que se fazia entre os negros nascidos no Brasil e os africanos.
Agora, permitam-me analisar Kehinde. Primeiramente, vou contar algo que me aconteceu pouco após iniciar a leitura do livro.  Eu fui almoçar com uma amiga psicanalista e falei do livro. Disse um pouco sobre a história da autora e de sua ida à Bahia para se inspirar a escrever. Com a maior naturalidade minha amiga disse que a autora estava descrevendo no livro o que ela gostaria de viver, que o livro era uma projeção do desejo dela. Eu até então não tinha pensado nisso, afinal, nunca tinha passado pela minha cabeça que alguém desejaria ser uma escrava. Mas depois percebi que fazia todo o sentido.
Apesar de ter sido escravizada, a maior característica da personagem é ser livre de espírito.  É curioso como ela nunca deixa de acreditar que o melhor vai acontecer.  Mesmo com um trauma terrível na infância, em nenhum momento ela se vê limitada ou fadada a sofrer. Sua autoestima é elevada, ela aproveita todas as oportunidades de aprender e tem ótimas relações interpessoais, desperta a confiança das pessoas  facilmente. Embora ela cite já no meio do livro não ser bonita, tem facilidade de conquistar os homens que deseja. Mas ela não se apega emocionalmente aos parceiros e não é romântica.
 Os filhos também não tiram sua liberdade. Mesmo quando ainda são muito pequenos, ela conta com ajuda para cuidar deles, seja da sinhá que deseja "adotar" seu primeiro filho, seja de um marido zeloso e cuidador que, mais do que dividir tarefas no cuidado às crianças, na verdade assume esses cuidados. Também em relação aos filhos, mesmo com a morte de um e o sumiço de outro e mesmo nunca deixando de buscar o filho desaparecido, ela descreve algumas passagens de vida como anos muito felizes. Ou seja, a personagem não se deixa abater por esses traumas.
Uma coisa que me fez rir sozinha, pensando como minha amiga psicanalista acertou em cheio, foi descrição da personagem Ressequida. Qualquer pessoa acharia muito ruim ser trocada por outra, mas a autora criou a "outra" dos sonhos: feia, infeliz, mal humorada, estéril, que não faz sexo com o amado e ainda por cima só teve a companhia dele por interesse. Assim fica mais fácil sobreviver a um abandono!
Interessante também o empreendedorismo da personagem. Kehinde sai da condição de órfã escravizada e vendida como animal para se tornar uma poderosa milionária africana. Parece que os negócios são a maior fonte de motivação de vida para Kehinde. Graças a eles, ela realiza vários desejos de consumo e poder.  Chamou minha atenção especialmente a parte em que ela justifica seus negócios com um mercador de escravos. A autora reserva uma página para argumentar, em suma, que, se ela não fizesse aquilo, outros o fariam. E assim dá por resolvida a contradição que existe em ser uma pessoa que no passado se engajou em luta armada pela abolição e depois acaba por fazer negócios com mercadores de escravos. Curioso que, se por um lado essa trajetória da Kehinde pode ter o efeito positivo de melhorar a autoestima da mulher negra, que se vê representada na personagem, por outro lado, poderia dar certo reforço ao mito da meritocracia, ao fazer parecer, por vezes, que seria fácil sair de escrava a sinhá. Se bem que, em sua trajetória de enriquecimento, a personagem consegue a ajuda de um casamento com um branco e de um providencial tesouro achado por acaso. O que talvez favoreça menos a ideia da meritocracia e mais a crença no dinheiro como forma de atingir a felicidade.
Bem, resumindo, a personagem é corajosa, de espírito livre e não é dramática, embora os fatos narrados às vezes sejam emocionalmente impactantes por si. Lendo o livro me senti por muitas horas estando na pele de uma mulher negra escravizada, tentando a todo momento conseguir respeito da sociedade apesar de sua origem. Impossível não fazer um paralelo com o preconceito que existe ainda hoje no Brasil. Foi muito interessante se aproximar das vivências dessa mulher negra e se imaginar em seu lugar.  
Isso me fez pensar em como, ao julgar a sociedade, precisamos fazer um esforço de enxergar as classes sociais de dentro. Entender "quem são e como vivem" (#je #sais) os outros nos leva a fazer contato com o que eles sentem e facilita a compreensão de certos fenômenos. Nós, na condição de membros de uma classe privilegiada e de esquerda, tendemos a ter certa dificuldade em compreender como as classes mais pobres aceitam toda a exploração sem se revoltarem. Vendo “de cima”, parece para nós muito fácil apontar motivos como ignorância para isso. A interpretação marxista é que a alienação é a responsável.  E assim, distantes, adquirimos um ar de superioridade em relação aos "pobres coitados alienados e explorados". Mas, quando a gente se aproxima do sentimento dessas pessoas, fica mais fácil imaginar que elas fizeram uma escolha. Elas escolheram viver.  De forma consciente ou não, elas sabem que o inimigo é mais forte e entre lutar ou se render, escolheram se render àquela condição social. E, mesmo com todos os problemas, vão construindo sua vida da melhor forma possível.  Talvez essa seja a grande contribuição do livro, criar empatia com os escravos do passado e seus herdeiros do presente.
Gostei muito do livro e me sinto grata por ter tido a oportunidade de lê-lo. Além de ter aprendido muito com o livro, foi uma leitura agradável, embora em alguns momentos a narrativa tenha adquirido um ritmo menos empolgante. Estou curiosa para saber qual dos muitos aspectos interessantes do livro vai ser enfatizado por cada um.


País Rico É País Sem Pobreza

(minha cópia de Um Defeito de Cor, que tem um defeito de cor, provavelmente provocado por Iemanjá, minha mãe, que sentiu ciúme de eu andar por aí carregando um livro tão Oxum)


Um Defeito de Cor é um livro grande, mas condensado. Condensa várias das histórias possíveis que um escravo pode viver, seja na saga da personagem principal ou nas veredas de outras personagens.

O livro é todo emocionante, desde o começo. A história de sua infância na África, antes mesmo da captura para ser vendida como escrava mostra quão dura e difícil a vida era lá naquela época, dando uma ideia de que ainda pode ser assim, daquele mesmo jeito em alguns lugares.  No entanto, em graus diferentes, os núcleos opressivos ali colocados permanecem. Sucessivas derrotas pela força, a morte dos parentes, o abandono dos pais e dos homens, Kehinde sofre desde a infância as marcas de ser mulher, de ser africana.

Àquelas injustiças outras vão se somando, e se for comentar todas aqui, o textão vai ficar insuportável. O livro me faz lembrar que a vida não é nada justa, e que mesmo as pessoas, que são quem poderiam torná-la ao menos um pouco mais justa, não o fazem.

Algumas descrições políticas são interessantes, porque muito pouco se fala, ou não com a profundidade adequada, por exemplo, das rebeliões da Bahia. Mas no campo da História, o que me chamou mesmo a atenção foi a presença brasileira na África, não fazia ideia da importância dos retornados brasileiros na inclusão da África na globalização. Buscando confirmar estes fatos em fontes que não um romance, me deparei com este lindo artigo de um não menos lindo autor aqui. Vale a leitura.

Apesar de achar que o livro fica bem chato nas descrições detalhadas sobre as festas ou os rituais, especialmente com os muitos nomes que eu achei parecidos, certamente gostei de ter mais contato com toda a cultura daquele pedaço da África e mesmo deste pedaço da África aqui no Brasil.

O livro também aponta vários casos da famigerada “vista grossa” e do jeitinho brasileiro — que bem poderia ser africano, francês ou inglês. Que proíbe o tráfico, mas ele ainda acontece e lucra-se com ele. Que proíbe o padre de casar, mas ele casa. Que diz que proíbe a escravidão por motivos humanitários, mas é para ganhar mais dinheiro. Que impõe o livre comércio, que leva a democracia na base da porrada, que exige pagamento de juros e corte de investimentos. Que muitas leis e muitos discursos na verdade escondem um subtexto absolutamente oposto.

Do ponto de vista econômico, o livro me levou um pouco a pensar a geração de valor. Pelo que entendi até agora das minhas leituras em Economia, no comércio o valor que se gera é quando alguém trabalha para dar valor a alguma coisa que é possuída por outro. Por exemplo, eu pego um sujeito na rua e vendo o trabalho dele em forma de escravo, e enriqueço com isso. Fala-se do ciclo do açúcar, dou ouro e do café na História do Brasil, mas pouco destaque se dá ao ciclo do tráfico de escravos, que permeia todo esse processo. Quem tinha uma fazenda de cana no século XVII pode ter ficado pobre no XVIII, mas não quem vendia escravos. Muito do dinheiro que se gerou e se acumulou em África e na outra margem do Atlântico passou pela venda de pessoas, como hoje passa pela venda da força de trabalho. No ponto do livro em que me dei conta disso, de que muito provavelmente antepassados meus traficavam escravos (ou já foram escravos, ou tiveram escravos) senti um aperto no peito e na garganta, a vergonha atávica e a angústia de estar num mundo onde isso aconteceu e acontece (guardadas as devidas proporções). 

A própria Kehinde ganha muito dinheiro explorando o comércio de armas na África, provavelmente o mais lucrativo hoje, e o segundo mais lucrativo no século XIX. Mesmo seus princípios de não traficar escravos são flexibilizados quando ela tem de negociar com traficantes. E enriquece assim, além de com outras atividades. Apesar de haver algumas marcas da época atual na construção da personagem, que a fazem parecer “à frente de seu tempo”, quando ela se refere aos africanos que de lá não saíram como "selvagens", assume a posição de seus exploradores, os europeus, que aplicaram este conceito a todos os povos não-europeus que encontraram.

Dentre as muitas formas de racismo, injustiça e preconceito que aparecem no livro, destaco o Hilário. Ele enriquece, passa a tratar mal os empregados (pretos pobres), mas se humilhava frente aos brancos da sociedade burguesa. Este ponto é crucial, pois talvez seja o que menos tenha mudado. Por mais que se argumente que ainda há resquícios de escravidão no Brasil, ou que ela tenha assumido diversas formas disfarçadas, essas formas nada mais são do que isso, espectros, restos liofilizados do que era a escravidão no século XIX. No entanto, os tentáculos da escravidão permanecem e este especificamente talvez com poucas modificações. Quando vemos as reações raivosas sobre cotas raciais, é a casa grande se manifestando, como já foi tão bem colocado em vários espaços. Há uma impossibilidade, um impedimento, na expansão do que se vê como próximo, como kin em inglês, porque há abismos por todo o lado. E, como é muito mais fácil se solidarizar com o que nos é próximo, quanto menos próximos houver, menor o sentimento de solidariedade social. Fica impossível cobrar que alguém rico-senhor entenda que o país precisa reduzir a faixa de pobres-escravos. Por isso defendi o lema da primeira administração Dilma, “país rico é país sem pobreza”. Pode parecer óbvio, mas não é.

Os estratos sociais brasileiros continuam, a meu ver, subordinados ao enquadramento da lógica da escravidão. Mesmo com o desenvolvimento de uma classe média importante (não tão significativa quanto no G7, mas mesmo assim importante), a lógica dual das classes permanece; há somente senhores e escravos. No concurso para cidadão brasileiro, só há vagas para essas duas posições. O interessante é que muita gente — talvez quase todo mundo — tem duas matrículas, é senhor aqui e escravo ali. Parece uma fôrma cognitiva, um imprinting*, que anula qualquer outra maneira de se relacionar socialmente. Por qualquer lugar onde se vá estão os abismos. A médica humilha a recepcionista que humilha o cara da limpeza. Há uma transmissão desse modelo, talvez um pouco como reprodução de uma marca ancestral, uma espécie de vodum de cada família brasileira que foi assentado por todo o país. Impossível não fazer referência a casos de pessoas que sofreram algum tipo de abuso ou assédio, em especial na infância, e que reproduzem estes comportamentos mais tarde ou em outras situações de sua vida.

As referências políticas feitas pela Kehinde deixam o livro menos verossímil, com um tom didático meio novela de Manoel Carlos, com a diferença que com a Kehinde eu de fato aprendi alguma coisa. E, talvez por acontecer no período em que ela estava na África, há poucas menções ao processo político que levou à abolição da escravatura no Brasil. E é isso que eu acho que devemos estudar um pouco mais, pois envolve o entroncamento das complexidades sociais, políticas, culturais e econômicas do nosso país.

*imprinting – é um termo em inglês que se usa em biologia para designar uma impressão cognitiva que permanece. Por exemplo, assim que nasce um patinho, numa curta janela de tempo, o que quer que ele veja se mover durante aquele intervalo ele vai seguir a infância toda. Depois de fechada essa janela, fica o imprinting. É assim que ele segue a mãe. Se por acaso não houver mãe, e houver, digamos, um boneco se mexendo, é esse boneco que os patinhos vão seguir durante a infância.



segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Afrológicas

Porte du Non-retour - Uidá, Benim

Acabo de ler “Um defeito de cor”, de Ana Maria Gonçalves, que já se tornou uma das coisas mais importantes que li na vida. Este livro é um romance histórico e, portanto, tem partes verdadeiras e elementos ficcionais, sempre muito verossímeis. Ele conta a história de uma menina-moça-mulher-senhora chamada Kehinde, uma africana que sai da Costa da Mina, do antigo Reino do Daomé (em território onde hoje se situa o Estado de Benim), e que chega ao Brasil na condição de escrava aos dez anos de idade.

O livro tem quase mil páginas e funciona como um panorama da escravidão no Brasil no século dezenove. Através da protagonista, e também dos personagens coadjuvantes, é possível ir montando uma espécie de mosaico de possibilidades e de trajetórias possíveis para um negro escravizado no Brasil.

Muitas das vezes, irrompi em lágrimas durante a leitura, especialmente nas páginas iniciais, mas também em alguns momentos no meio do livro e no final. É um livro tão bonito, mas tão bonito, que é difícil falar sobre ele a partir de uma abordagem historiográfica sem privilegiar os aspectos estéticos. E, diferente de quase tudo que temos lido até aqui, este livro é um romance e, portanto, acho relevante ter uma preocupação com possíveis spoilers. Mas tentarei ser breve em relação às minhas impressões, elencando alguns pontos principais a serem explorados sobre esse romance bastante rico.

O primeiro deles, certamente, um dos pontos a ser marcado por todo mundo que o leu, é a crueldade da escravidão. Trata-se de uma obviedade. É óbvio que a escravidão foi uma instituição deplorável e cruel na história do Brasil (mas é sempre importante reforçar o óbvio em tempos de ‘escola sem partido’). Mas a gente sabe por alto da crueldade, a gente não a vê, não a sente. Com alguma frequência vejo pessoas comparando a escravidão negra ao holocausto judeu. Essa comparação pode ser facilmente apontada como descabida (e muitas das vezes o é), mas é possível ver similitudes entre um processo e outro, especialmente na forma como o respeito à dor é vivenciado na posteridade. Enquanto na Alemanha existe o Museu do Holocausto e enquanto Hollywood explora essa temática em uma miríade de filmes e mais filmes que tentam impingir a dor judia da Segunda Guerra a todo e qualquer espectador, por aqui, temos o Cais do Valongo, arqueologicamente revisitado, mas culturalmente pouco sentido, pouco experimentado. Temos também o Museu do Negro, em São Paulo, que é muito bonito, e muito necessário, mas não é o Museu da Escravidão. Penso que este é ainda um museu que está para nascer (e pode ser até que já exista e eu não conheça). Mas imagino que deva ser algo forte, impactante, com a experiência de entrar em um navio negreiro e sentir os odores, os gritos, algo impressionante mesmo. Na Praça Mauá, este neolugar do Rio de Janeiro que acaba de sofrer uma Pereira Passificação, existem dois museus construídos recentemente – o MAR (Museu de Arte do Rio) e o Museu do Amanhã. Neste lugar tão caro à história negra carioca e brasileira, nenhum museu sobre a escravidão, sobre a negritude, sobre as religiões afro-brasileiras, nada. No máximo, ouvi dizer que há uma estátua recém-inaugurada do João Cândido, o marinheiro negro, mas ainda não sei onde ela está. O projeto megalômano de Santiago Calatrava contribuiu para transformar o Museu do Amanhã no provável museu mais visitado do Rio. O problema é que olhamos para o amanhã sem entender e sem aceitar o nosso ontem. Não só a escravidão, mas se pensarmos também na ditadura militar, cuja Comissão Nacional da Verdade foi fraquinha e pouco deliberativa, a impressão que fica é a de que somos um povo muito abnegado em relação à própria história. A ânsia em ser esse país do futuro que nunca chega faz com que a gente vá atropelando tudo, passando por cima das compreensões do que somos e das dores que sentimos e que herdamos. Estamos sempre ansiosos em virar a página, e é por isso que somos capazes de lotar o Museu do Amanhã diuturnamente, mas essa página que todo mundo quer virar faz parte de um livro que quase ninguém está lendo.

Por falar em livro, permitam-me voltar a ele. Penso que nunca li nada mais feminino do que este livro (talvez “A hora da estrela”, da Clarice Lispector, mas só talvez). “Um defeito de cor” conta a saga de uma mulher negra no Brasil, e foi escrito também por uma mulher negra no Brasil. Neste livro, vemos a vida sempre através dos olhos de uma mulher. Além da Kehinde, as outras grandes personagens do livro também são mulheres, como a Esméria, no papel social de mãe, a avó africana, as amigas Claudina e Adeola, etc... É através desses olhos que vemos a relação de maternidade, a relação com os homens, a relação com as outras mulheres.

Por falar em maternidade, lembrei muito da minha mãe com esse livro. Acho que ele me ajuda a compreendê-la melhor. Foi minha mãe quem primeiro o leu e me indicou, mas, além disso, vejo nela um pouco da Kehinde, que tem toda essa coisa de ser uma mulher lutadora, que vai atrás da própria história e vai abrindo caminhos. Minha mãe, assim como a protagonista da história, vai resolvendo e direcionando a vida daqueles que a cercam, enquanto toca a própria vida. Até terminar o livro, sempre entendi esse ‘ir resolvendo e direcionando a vida do outro’ a partir de um julgamento que enquadrava essa conduta como ‘não deixar o outro escolher seu próprio caminho’, ‘personalidade controladora’, ‘invasão de privacidade’, etc... Agora, finda a leitura, percebo que esse comportamento (além de uma característica intrínseca de sua própria personalidade) está mais associado às redes de ajuda mútua, em que cada um vai cuidando um pouco de todos. Quem pode mais, cuida mais, quem pode menos, é mais cuidado. Essas redes de ajuda mútua são mais valorizadas por quem é ou por quem já foi mais pobre, onde a presença do Estado é menos garantidora dos direitos fundamentais, e onde a pessoa que está ao lado é, muitas das vezes, a única que pode fazer diferença na sua dignidade e na sua condição de vida. Além disso, esse senso de comunidade, além de um aspecto cultural associado à pobreza, parece ser uma noção especialmente importante para a comunidade negra brasileira, que teve que se virar de forma comunitária após seus integrantes chegarem escravizados oriundos dos navios negreiros partidos da África. Nesse sentido, quando julgo os aspectos da vida comunitária como invasivos, percebidos na minha mãe ou em qualquer outra pessoa, penso que acabo por me enquadrar num padrão de vida mais eurocêntrico, em que a minha vida é importante individualmente, em que a privacidade é um valor inalienável, em que a minha vida acontece na comunidade, e às vezes até com a comunidade, mas sendo sempre possível separar ‘vida’ e ‘comunidade’, quando as coloco em duas palavras e sei mais ou menos o que uma quer dizer independentemente da outra. Por isso, apesar de ter a pele mais clara, acho que a minha mãe é mais negra do que eu, e essa dicotomia comunidade x individualidade, provocada pelo livro da Ana Maria Gonçalves, é um dos elementos que reforçam a impressão que tenho de mim mesmo como um negro embranquecido.

Ser negro e ser branco compõem experiências de vida muito diferentes, especialmente no Brasil, onde a marca da cor e das diferentes nuances sempre se faz sentir de maneira muito marcada. Nesse sentido, uma das passagens do livro que mais me fizeram pensar foi uma cena bem no início, em que a protagonista brinca com a sinhazinha, ambas mexendo numa boneca. A sinhazinha coloca suas vontades ao brincar com a boneca e, por haver uma relação senhor-escravo entre a sinhazinha e a Kehinde, é esta a vontade que prevalece. Mas à Kehinde também é dada a oportunidade de dizer o que quer fazer com a boneca, ao que ela, portanto, diz, mas a sinhazinha faz com a boneca o exato oposto do que ela pediu. Então, numa manobra bastante astuta, e talvez pela primeira vez percebendo efetivamente como as coisas deveriam ser conseguidas a partir de sua nova condição de escravizada, a Kehinde entende que para conseguir o que quer, ela deve pedir o exato oposto de sua vontade. Mas por que essa passagem é importante e por que ela me tocou em particular? Porque penso que ser negro (em especial no Brasil) é, de certa maneira, viver sob a égide de uma lógica torta, completamente própria, e que desafia o tempo todo a racionalidade. Durante muitos anos (e até hoje) sou instado a não raspar a cabeça, porque isso me ‘torna’ mais negro aos olhos da sociedade. Portanto, sou percebido como mais perigoso. Daí decorre que o risco que opto por correr ao andar pela rua tem a ver com o meu corte de cabelo, o que não faz nenhum sentido. Existe um medo muito grande de ‘ser confundido com bandido’, o que um jovem branco certamente nunca pensou. Logicamente, um jovem branco pode argumentar que não existe isso de ser confundido com bandido, que para que alguém seja enquadrado como criminoso tem que haver flagrante delito ou julgamento por um tribunal, etc, ou de que ninguém deve precisar provar nada para ninguém, que são os outros que têm a responsabilidade de provar a sua culpa, etc... A lógica da presunção da inocência não existe direito quando se é negro, de forma que é preciso, o tempo todo, se preocupar em prová-la. 

As coisas ditas no parágrafo anterior certamente não são novidade para ninguém, mas o ponto que eu queria marcar é que ser negro não é apenas uma diferença de tom de pele. Não é sequer uma diferença de acessos ou de carga de preconceito. Ser negro é viver em uma lógica irracional, e de certa forma aceitá-la, entendê-la e negociar com ela, o tempo todo. É por isso que ser preto é tão diferente de ser branco, quase ao ponto da incomunicabilidade. Esse é o desafio que deveria ser proposto à Márcia Tiburi (que tanto promove o diálogo), que é como estabelecer o diálogo e as tais pontes entre as pessoas se o que as difere não é tão-somente uma disputa de posições, mas uma vida inteira engendrada através de signos e códigos que não são intercambiáveis. Como, finalmente, acessar o Outro a partir de meu penhasco se só o que consigo ver é o abismo sob meus pés, procurando do lado de lá um outro planalto, mas ignorando completamente a quantidade de vida microscópica existente no ar, a fauna das aves, os mamíferos que habitam o chão lá debaixo que não consigo ver, as espécies vegetais que crescem no meio das pedras, o campo eletromagnético que corre por entre todos esses seres, se o Outro na verdade pode ser cada uma dessas coisas; ou seja, como aceder a esse Outro, se não consigo vê-lo, entendê-lo, descobri-lo inclusive perto de mim, se do meu ponto de vista, que sempre procuro no Outro aquilo em que de alguma forma eu reconheça algo do que também sou, tudo permanece no campo do obscuro e do insondável? Para onde, finalmente, deveríamos erguer essas tais pontes?

Talvez, se pudéssemos erguê-las para a África, poderíamos entrar em contato com uma parte de nós que é sempre ignorada. Ao final do livro, quando a protagonista retorna ao continente africano, somos apresentados a uma parte de nossa história que poucos conhecem: a presença dos brasileiros retornados à África. Pretos saem de sua terra natal como escravos em direção ao Brasil, e procuram se manter africanos nas religiões e nas tradições, como uma prova de resistência, de não-embranquecimento. Mas, ao voltar para a África e levar para lá, de volta, o que se viveu do Brasil, eles são encarados como brasileiros (ainda que sejam africanos de nascimento). Eles carregam costumes brasileiros, trazem consigo a religião católica, o modo de se vestir das pretas da Bahia, o modo brasileiro de se construir casas. E se estabelecem em bairros brasileiros, formando comunidades de prestígio, e com algum grau de influência nos poderes locais. Em algum momento da história, fiquei com a impressão (que pode estar equivocada) de que esta comunidade de brasileiros poderia exercer alguma espécie de protetorado no antigo reino do Daomé, como fez a França nesta região que veio a se tornar o Benim e a Inglaterra naquela que veio a se tornar a Nigéria. O fato é que, a despeito da influência local dos brasileiros no Daomé no século dezenove, não fomos capazes de manter a perenidade desse laço, e hoje, nas cidades da antiga Costa da Mina, especialmente no trecho que vai de Uidá a Lagos, há pouquíssima vinculação afetiva, técnica e financeira com o Estado brasileiro. Hoje, não há voo direto do Brasil para o Benim ou para a Nigéria (diferentemente de Angola, com voos saindo do Rio de Janeiro e que, assim, como Moçambique, parecem manter um certo laço afetivo, cultural e econômico com o Brasil, provavelmente por causa da lusofonia). Uma outra coisa que me ocorre em relação a esse fenômeno é a de que a história do povo negro no Brasil é suficientemente desvalorizada para que ninguém saiba esta história dos retornados. Mas já me deparei com longas reportagens sobre a saga e o drama dos dekasseguis, os brasileiros filhos ou netos de imigrantes japoneses que optam por voltar ao Japão, ficando numa espécie de limbo em que não se sentem nem plenamente brasileiros e nem japoneses. Como gostam de dizer por aí, ainda mais nesses tempos olímpicos, a questão dos dekasseguis é costumeiramente colocada como uma ‘história de superação’.

Aliás, uma das curiosidades que tive nesta parte que fala sobre os retornados brasileiros à África foi sobre estas cidades africanas que a protagonista menciona. Lagos é a capital da Nigéria, uma das maiores cidades da África hoje, isso já sabemos. Mas e Cotonu? E Porto Novo? E Uidá? Cotonu é hoje a capital do Benim, cidade costeira do antigo Reino do Daomé. Porto Novo, esta cidade com nome assim mesmo em português, é uma outra cidade importante do Benim. Uidá, cidade na qual a Kehinde embarcou em direção ao Brasil, é mais uma cidade litorânea do Benim, também chamada de Ajudá, por causa do Forte São João Batista da Ajuda. Esta cidade ficou muito tempo sob domínio português, só tendo sido reconhecida pelo governo de Portugal como pertencente ao Estado de Benim em 1975 (a partir de dados da Wikipédia). Mas o mais interessante sobre Uidá é que o porto de onde embarcaram os escravos para o Brasil ficou conhecido como Porte du Non Retour, ou Porto do Não-Retorno, e hoje é adornado por uma espécie de pórtico, belo e triste, que traz à lembrança dos vivos a memória daqueles que jamais retornaram, ou que nem mesmo chegaram vivos ao outro lado do Atlântico.

Os que não retornaram e que, portanto, ficaram no Brasil contribuindo para a formação de nossa brasilidade (se é que isso existe), trouxeram ao Brasil muitas religiões. Se hoje, pensamos apenas no candomblé, e na já afro-brasileira umbanda, é importante lembrarmos dos nkisis, conjunto de práticas religiosas de Angola, e do culto aos voduns, aos eguns e aos egunguns, também originários do mesmo território africano (Reinos de Daomé e de Oyó) de onde vieram os orixás do candomblé. As religiões afro-brasileiras são muitas, mas sempre acabamos por tratar tudo como uma coisa só, em geral no reducionismo do termo ‘macumba’.

Por falar em reducionismo, e já me encaminhando para fechar o texto, gostaria de falar sobre o título do livro, “Um defeito de cor”. Ainda estou sem saber se gosto ou não do título, e acho que esse é um assunto bem interessante para discussão (não o meu gosto, mas os motivos que estão por trás desta escolha estética). Este livro é certamente a coisa mais empoderadora que já li quando se fala sobre a questão negra no Brasil. E o título é bastante provocador, apontando para o fato de que a cor era considerada um defeito (e não uma característica) na época da escravidão; algo a ser corrigido, e não algo a ser aceito. Eu, negro, no século XXI, sei que a cor não é defeito, sei dessas coisas todas. Mas quando abro este livro no ônibus e começo a folheá-lo, sempre fico com medo de parecer racista para aquele que senta ao meu lado. Porque o outro (o outro, o Outro, de quem tanto se fala) só vê a capa e o título, mas não sabe efetivamente o que está contido naquelas quase mil páginas. E embora esta capa possa servir para que ele pondere consigo mesmo se a cor é um defeito ou não, penso que ele pode estar o tempo todo secretamente me julgando, em sua própria razão, pensando “olha lá o cara racista lendo um livro que fala sobre a cor como sendo um defeito”. Como sempre tento pensar exemplos em paralelo para ver se minha paranoia se justifica, me imaginei sentado no mesmo banco, abrindo um livro grosso em cuja capa houvesse uma enorme estrela de Davi, com o título “A religião errada”, que me parece ter uma carga semântica similar a ‘um defeito de cor’. Será que eu seria percebido como anti-sionista pela pessoa ao meu lado? Será que daria ao outro a possibilidade de me abordar dizendo “desculpe interrompê-lo, eu vi seu livro e queria dizer que não existe religião errada”, ou “desculpe incomodar, mas cor não é defeito”.

O título do livro me levou a esse tipo de pensamento praticamente todas as vezes em que precisei me sentar ao lado de outra pessoa, especialmente se esta pessoa era preta. Quando era preta e parecia rica e culta (com cara de professora/aluna da PUC), pensava que este livro, a despeito de seu título, era uma espécie de troféu no meu julgamento, porque ela certamente saberia do que se tratava, já leu ou já teria ouvido falar, e me veria como alguém realmente empenhado na luta contra o preconceito, uma pessoa empoderada. Entretanto, se a pessoa ao meu lado fosse preta, mas aparentemente pouco estudada e pobre, eu pensava que este livro pudesse ser visto como uma ferramenta opressora, algo que legitimasse e endossasse a experiência daquela pessoa, que muito provavelmente sempre teve sua cor encarada como um defeito pelos que a cercam e, eventualmente, também por si mesma.

Este título dúbio, ambíguo, me faz pensar no binômio opressão x empoderamento, algo sobre o qual sei que preciso pensar e escrever com mais calma, mas cujo mote central é o de que as coisas não são em si mesmas empoderadoras ou opressoras, mas de que a opressão e o empoderamento tem a ver com o uso que se dá a essas coisas, à maneira pela qual, uma vez emitidas, elas cruzam a fronteira da alteridade e, após as turbulências e alterações de rumo na fronteira difusa que nos separa do outro, sempre chegam do lado de lá sem que tenhamos muito controle se a mensagem que foi captada é algo que empodera ou algo que oprime, isto é, de maneira independente da nossa intenção prévia ao emitir uma mensagem para oprimir ou para empoderar.

Mas, apesar dessa dicotomia, o que ficou mais claro para mim após essa questão da percepção quanto ao título do livro é que o racismo, para além de seu caráter mais brutal, no que tem de ofensa, diminuição do outro, negação de sua humanidade, etc, é também algo que está impregnado de sutilezas, algo tão frágil e difuso que torna necessário que a questão da cor da pele, absolutamente estruturante para entender a realidade brasileira, seja pensada em cada objeto que se carrega, em cada passo dado, em cada mirada, em cada metáfora, em tudo que há.


A questão da cor é ubíqua. Pensá-la, também de forma ubíqua, é inescapável.

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Caros, segue o texto solto. Apenas com partes que gostaria de discutir no GEB.


Confesso que minha única referência de Joaquim Nabuco era a rua de Ipanema, fundos do colégio que estudei quase toda minha vida. Início, mais uma vez, relatando como me surpreende a idade dessas personalidades (lembrei do Castro Alves) comparado a nossa juventude de hoje. O fato de Joaquim Nabuco ter sido criado, pela madrinha, em um engenho, na convivência natural com escravos, só tendo conhecido seu pai aos 8 anos, me diz muito sobre o que ele se tornou. Acredito que se não fosse por isso não tivéssemos nele um dos defensores das ideias abolicionistas. No início me causou estranheza a defesa dele pela monarquia, mas, ao logo da biografia, passo a entender e, pelo contexto, quase concordar com ele.  Nada melhor do livro do que a narrativa das viagens dele, sua adoração por Londres, a comparação com Paris e Nova Iorque. Não deixei de me sentir incomodada quando ele escreve sobre como era obvio que um brasileiro tenha pela Europa um deslumbramento, mas penso que em 1870 a diferença entre esses dois “mundos” era incomparável. A paixão dele pelas artes. A citação e reconhecimento de um por um (principalmente André Rebouças), dos colegas durante o processo da abolição. A maneira como ele enxergou que após 15 de maio de 1888, os movimentos abolicionistas se dissipam (me lembrou Florestan Fernandes). Na página 131:  a grande questão da democracia brasileira não é a monarquia, é a escravidão. Nas páginas 80 e 81 ele assume a preferência pelo estrangeiro e assume que o que o impediu de ser republicano na mocidade foi provavelmente “o de ter sido sensível à impressão aristocrática da vida”.  A verdade é que ele enxergava na monarquia algo que está diretamente ligado aos ingleses e sua formação político social. Não há como reproduzir Londres em qualquer lugar do mundo. Preocupação da república a troca de governo ser de 4 em 4 anos e os cargos ficarem à disposição do presidente. Página 101: Política de governo e Política de Oposição. Página 112: Na câmara dos Comuns não se imagina o processo de lobbying. Pág. 120 “Conciliação como coalizão”.  

Um artista perdido na política


Minha expectativa ao ler o livro “Minha formação”, de Joaquim Nabuco era ler um livro sobre escravidão e sobre as ideias que levaram o autor a se tornar um abolicionista. Imaginava encontrar um autor apaixonado pela questão da igualdade racial e revoltado com a brutalidade humana. Não foi o que encontrei, fiquei surpresa por não ser a escravidão o principal tema do livro, mas não me decepcionei. Achei que várias outras questões interessantes também foram abordadas.
 
Logo no início percebi estar lendo um grande escritor. A prosa de Nabuco foi bastante agradável e, como ele mesmo se definiu, é uma prosa rítmica, com um pouco de sentimento, pensamento e poesia. A dimensão poética aparece de forma mais proeminente em alguns pontos do texto, e algumas passagens são de uma beleza intensa.

Além de seu talento literário, o autor mostra ser idealista e otimista. Acredita que a natureza humana é boa, elogia fortemente a cultura inglesa, mostra gratidão a seu pai e a homens que o inspiraram, compadece-se do sofrimento dos escravos e revela que se engajou na luta pela abolição por acreditar estar fazendo um grande bem para a humanidade. Tudo isso me inspirou simpatia e admiração pelo autor. Joaquim Nabuco foi um membro da elite e teve contato com as pessoas das mais altas posições sociais. Ele chega a se desculpar por descrever suas histórias em meio a aristocratas. Ele fala que foi atraído pelo magnetismo da realeza, mas foi da mesma forma impactado pelo sofrimento dos escravos. Em um capítulo final do livro ele cita sua infância em um engenho e sua convivência com os escravos.

Foram tantas questões suscitadas, que eu seria capaz de escrever vários textões, mas, o tempo me obriga a tentar ser breve, então vou citar apenas algumas. Primeiro, a questão é política. O autor, que foi diplomata e deputado, afirma que seu interesse na política é mais intelectual que prático e critica o ambiente dos partidos, que ele acredita ser limitador de opiniões individuais. Muito interessante para mim foi a defesa que o autor faz da monarquia constitucional inglesa, aquela em que “o rei reina e o parlamento governa”. Afora o excesso de idealização da cultura inglesa, que muitas vezes beira a ingenuidade, fiquei surpresa em encontrar bons argumentos em defesa da monarquia. Na verdade, diante de meu escasso, para não dizer nulo, conhecimento de ciência política, eu já tinha refletido nas desvantagens de um sistema democrático presidencialista como o nosso e o americano e achei interessante observar num livro de mais de cem anos atrás algumas das mesmas críticas que eu já havia feito mentalmente.  

Ele se mostra um conservador.  Fala umas coisas interessantes, como o fato de a democracia inglesa não ter surgido a partir de uma revolução que derrubou a nobreza e de como na verdade foi conveniente à monarquia que tenha havido reformas republicanas que deram maiores direitos ao povo. Isso me fez pensar em como reformas podem ser meios interessantes de manter certas instituições ainda no seu lugar de poder. É mais ou menos como a fofice do papa Francisco salvando a Igreja de perder ovelhas no grande pasto global.
Inclusive há uma parte do livro em que o autor descreve uma espécie de fórmula para que o jeitinho conservador mude as coisas. Ele diz que são regras do espírito inglês: conservar tudo que não seja obstáculo ao melhoramento, só demolir o que for prejudicial, fazer mudanças inicialmente provisórias -como prevenção para o caso de não dar certo- e reformar o que se tem de antigo.

Na verdade eu concordo que são regras bastante sensatas e tendo a achar que, vivendo numa sociedade que eu considerasse boa e justa, acharia desejável seguir essa fórmula. Mas eu particularmente não consigo ver certas injustiças sociais e recalcar meu sentimento revolucionário. Antes de ser contra a destruição de tradições que não fazem mal algum, sou a favor do direito legítimo que as classes oprimidas têm de romper o pacto social por meio de todas as formas possíveis, inclusive pela via da violência, que pode ser um ato de legítima defesa.

Já o autor se posiciona contrariamente a atitudes revolucionárias e diz que no republicanismo, no comunismo, no socialismo e no anarquismo, a revolução parte de inveja. Ele se diz a favor de revoluções “da língua e da pena”. Curiosa essa opinião ter vindo de alguém que afirma ser a favor das liberdades individuais e da igualdade perante a lei. O autor diz admirar a monarquia constitucional pelo fato de a Câmara dos Comuns ser sensível à vontade popular e por crer que exista liberdade e igualdade de direitos na Inglaterra. Mas deixa de levar em consideração que a Inglaterra era uma nação colonialista.

Interessante também a comparação entre EUA e Inglaterra, que seriam protótipos de república e monarquia mais avançadas. Joaquim Nabuco critica bastante os EUA, que descreve como país corrupto, cheio de politicagem e com justiça parcial. Parece até o Fabio Boechat falando do Brasil de hoje. O que eu, claro, adorei.  Muito interessante também a concepção que ele tem do “estado mínimo” americano. Em nenhum momento ele cita essa expressão e nem flerta com as ideias dos teóricos do liberalismo. Mas ele não deixa de citar essa questão do Estado “fraco” americano. Para ele, o povo americano não se interessa por política e não se importa em ter um governo ruim, pois a maior preocupação dos americanos é com questões materiais. Vale notar também que ele crê que o sistema político americano tende a atrair para seus quadros homens de moral inferior, pois já é percebido por todos como um local de corrupção. Exatamente o que se tem dito do Brasil hoje. Ele também pontua que a questão da igualdade nos EUA não é absoluta, pois não contempla outras raças além da ariana.

Algumas opiniões do autor me impactaram, por serem muito diferentes do que eu penso. Ele acredita que a razão é superior à emoção e que a humanidade está num processo de evolução, caminhando para um estado mais racional. Ele usa esse argumento quando diz que a calma do espírito nacional, necessário segundo ele para um governo efetivo, é fortalecida na monarquia pelo fato de a realeza servir como uma instituição cerimonial e diz que “enquanto a humanidade tiver mais razão que emoção, a monarquia será um governo forte”. Não creio que devemos opor razão e emoção, ainda mais considerando a razão como algo superior.
Além disso, o autor acredita que as diferenças entre as nações podem ser explicadas por motivos biológicos, por diferenças raciais. Não pude deixar de perceber essa ideia e julgá-la a partir do meu prisma. Ou seja, não me agradou esse pensamento. Mas, ao mesmo tempo, o autor não vai fundo no tema, portanto, seus preconceitos me afetaram menos que o ódio racial que encontrei no texto do Alcântara Machado.

Queria ter mais tempo para pensar e escrever sobre como Joaquim encarou a questão da escravidão e da abolição. Mas vou apenas citar o que achei mais marcante. Uma coisa é a tentativa que ele faz de aliviar a culpa do lado dos senhores. Ele cita que os escravos eram gratos a seus senhores e diz que, foi criado num engenho e tinha carinho pelos escravos que pertenciam a sua família. Ele procura até mesmo colocar a escravidão no Nordeste como menos desumana que a do sul. Segundo ele, os escravos pro senhor de engenho do Nordeste naquele tempo eram apenas questão de prestígio e era no sul que eles eram obrigados a trabalhar pesado. Achei interessante, porque vemos com isso como o tema da escravidão ao ser apropriado pelos “brancos”, os fez ser ao mesmo tempo os acusadores e os réus num mesmo juri.

Por fim, quero citar apenas que Nabuco lamenta que a abolição tenha se dado sem a devida indenização aos ex-escravos. Não vou me delongar mais, mas acredito que essa questão da indenização é fundamental e nunca foi discutida no nosso país o quanto mereceria ser. Hoje podemos ver o resultado da escravidão e da falta de indenização por toda parte, e ás vezes fico me perguntando até quando.

Quem não tem sangue negro nas veias, tem nas mãos.

Durante boa parte do tempo que gastei lendo livro, fiquei pendular, ora odiando, ora gostando de Joaquim. Ele escreve muito bem, e isso faz diferença. Saí do pêndulo quando entendi que é um livro extremamente pessoal, que não deixa dúvida quanto a sua intenção desde o título. Acho que foi o primeiro livro que li escrito por um político de verdade, embora a carreira política de JN tenha ocupado uma pequena parte de sua vida, apenas.

Este ponto já gerou algum mal-estar, pois ele se coloca como um político ocasional, ou monocausal, que entrou na política apenas pela abolição. Como texto ou subtexto em várias partes do livro vejo uma desvalorização da política real, com um viés moralista e algo que talvez hoje chamaríamos de apartidarismo. Deu também vontade de vomitar a pagação de pau dele para a Europa. Depois tento compreender o contexto e tudo, mas também compreendo o contexto em que eu leio, não só aquele em que JN vivia. O livro é retrato de um tempo e de uma cultura, a partir do ponto de vista de um aristocrata do Império. Se ele começa falando bem do alto, aos poucos vai se colocando mais humano, com falhas e ressentimentos, mas não o ressentimento do aristocrata ferido pelo progresso do tempo, mas de alguém que percebe que não acertou sempre na vida. Ele poderia ter feito do livro um grande lamento e crítica à República, do modo como ela chegou e se estabeleceu no Brasil, mas prefere não morar na queixa e segue em frente.

Em vários momentos ele se refere ao inconsciente. O livro é de 1900, mesmo ano da formulação clássica freudiana que veio com “A Interpretação dos Sonhos”. Esse dado reforça a tese de que o conceito de inconsciente não foi inventado por Freud, mas sim capturado e depurado por ele a partir do Zeitgeist. Na literatura há outros exemplos disso, com Machado e Eça.

No começo, citando Bagehot, ele faz uma espécie de elogio ao parlamentarismo (monarquista). Fala que o poder que faz as leis deve também se ocupar de executá-las. No Brasil hoje isso não ocorre, e é frequente a falta de acordo entre os interesses legislativos e executivos. O legislativo da oposição quer aumentar os gastos que o governo quer cortar ou conter. Acho que essa frase resume bem certos momentos da política. Mesmo com a exigência de que, ao apresentar um projeto que implique gasto, o parlamentar tenha de indicar a origem do financiamento, o que se vê são projetos de leis que não podem ser cumpridas, regras sem previsão de sanção ou punição para quem as descumprir, ou simplesmente leis que não “pegam”, ou seja, não são cumpridas de todo, e não se espera que sejam cumpridas.

Ainda sobre a questão da decisão versus responsabilidade na execução, pensei no Judiciário. O Judiciário é o poder que manda fazer tudo, mas não se responsabiliza pelas consequências de suas ordens. Isso por um lado faz sentido, pois garante alguma isenção. Por outro leva a um poder desconectado da realidade. Será que os juízes lançariam mão tão frequentemente de ordens de prisão, penas de reclusão etc., se fossem eles a arcar com os custos das prisões, por exemplo? A mobilização do Judiciário para resolver — ou ao menos discutir e trabalhar — a questão carcerária no país é insuficiente. Mesmo a lei facultando a aplicação de penas alternativas à reclusão, os juízes, de forma geral, continuam privilegiando mandar os condenados (ou às vezes nem condenados) à prisão, que não é eficaz nem eficiente.  O que tem determinado a decisão por esta ou aquela pena são, nesta ordem, a cor da pele e a classe social do acusado. Um ponto de perpetuação da organicidade da escravidão no Brasil.

Assistindo a debates e sessões na TV Câmara, embora naqueles algumas questões importantes sejam discutidas, nestas o que entra de fato em deliberação são geralmente projetos fúteis e de baixo impacto na resolução dos grandes problemas nacionais. O processo democrático é muito pouco denso e muito lento.

JN percebe que no Reino Unido o parlamentarismo é “orgânico”, isto é, é uma instituição nascida e crescida de maneira natural e espontânea do seio da sociedade. Na verdade, acho que não é bem assim, mas não tenho muitos elementos além do meu achismo para contra argumentar. Mas no Brasil, orgânico mesmo é a escravidão, contrariamente ao que JN coloca mais adiante no livro. A organicidade acaba sendo feita de cima para baixo, tanto em sentido progressista — como na não aceitação popular do desmonte do SUS — como em sentido reacionário, como no caso do medo do comunismo e da meritocracia, e da própria escravidão. Isso mostra que é possível gerar organicidade. Ou ainda desfazê-la como o que acho que deve ser feito com o pensamento senhor/escravo.

Ele critica a criação de instituições sem institucionalidade no Brasil, como cópias do que há em outros países. Concordo com isso, mas não sei como dar solução. Os modelos de fortalecimento de poder local são bem interessantes em teoria, mas não me parece haver no cidadão brasileiro da grande cidade, de forma geral, disponibilidade para participar de processos decisórios, por exemplo em audiências públicas ou conselhos locais de administração (de saúde e educação, por exemplo). Esses dispositivos, cuja criação objetiva gerar formas de capilarização das tomadas de decisão, não raramente são cooptados por xerifes locais que nem sempre agem para o bem comum, ou representam os anseios da comunidade.

O parlamentarismo gera também instabilidade, em que pese a imagem estável de um chefe de Estado estável e inócuo, pois não se sabe nunca até quando um determinado governo vai continuar governo. A periodicidade das eleições presidencialistas cria o problema de se paralisar tudo a cada 2 ou quatro anos por causa das campanhas de eleição, então não há alternativa perfeita one size fits all. A própria Inglaterra já passou leis para dar mais previsibilidade às eleições. Nos últimos 3 anos, a Austrália teve uns 4 primeiros-ministros, mas só uma eleição popular.

De fato, em havendo grandes diferenças entre legislativo e executivo, por conseguinte haveria um bloqueio das ações do governo enquanto durar o impasse, que pode levar anos para se resolver. O parlamentarismo não evita isso por completo; é cada vez mais comum vermos governos “trancados” por incapacidade do partido com mais cadeiras de fazer maioria no parlamento. Bélgica, Espanha e Portugal são exemplos recentes em que isto aconteceu.

Ainda no tocante ao seu preferido objeto de pagação de pau, a Inglaterra, ele menciona que Londres é a metrópole do mundo e é uma cidade inglesa, não uma cidade cosmopolita. À época a circulação de pessoas era mais difícil, mas o capital já circulava muito bem, obrigado. Hoje Londres não é mais uma cidade inglesa, sinal de que em 150 anos a circulação de pessoas cresceu ao menos um pouco.


A maior contribuição do livro, mais do que um olhar, ainda que superficial, interno do processo legislativo que conduziu à abolição, é reforçar que a escravidão por muito tempo permanecerá no modo brasileiro de pensar e agir. Penso que devemos dar a maior profundidade possível a este assunto nas discussões e leituras do grupo e vou insistir nisso. É a escravidão que está por trás do cisma dos brasileiros em ricos e pobres. Os pobres que querem ser senhores. O oprimido que quer ser opressor. O policial que bate, atira, confunde pipoca com droga, mas não confunde preto com branco. Qualquer coisa que se tente chamar de “espírito nacional” traz consigo essa marca.