segunda-feira, 28 de setembro de 2015

O problema do poeta público


Carlos Alves seria um poeta romântico típico: escrevia poemas com temáticas amorosas, gostava de fazer uso de formas poéticas simples, porém dramáticas e eficientes, utilizava a natureza não apenas como cenário, mas também como personagem, idealizava e sonhava. Seria um poeta romântico típico se não tivesse abraçado é defendido com fervor uma temática social: a abolição da escravidão no Brasil. Em uma época em que o tema ainda não tinha reconhecimento na sociedade brasileira, ainda profundamente alicerçada na escravidão, Castro Alves foi um precursor da causa e a defendeu com louvor e distinção em sua obra poética.

O fazer politico - e mesmo suas posturas pessoais - não foram tão distintas assim.

A despeito do seu apoio a eventos beneficentes e a políticos que tenham defendido a causa abolicionista, não há registros de um envolvimento político mais profundo do poeta. Talvez a política o fadigasse, talvez ele tenha morrido muito moço, de modo que não houve tempo hábil para que ele se engajasse na política. Compreende-se que Castro Alves era antes de tudo um poeta, e se dedicou de corpo e alma ao seu fazer poético. Mas suas posturas pessoais poderiam ao menos refletir um pouco da causa que defendeu com tanto talento. Nisto, não foi muito bem-sucedido:

"Os Abolicionistas deviam enfrentar diariamente problemas de consciência. Eram contrários à uma instituição que os forçava a depender dela, pois não logravam dar 3 passos sem usar escravos, já que toda a sociedade, no seu dia-a-dia, sobre eles se assentava. Para começar, suas casas dificilmente funcionariam sem eles, uma vez que por trabalho de escravo se tinham as tarefas domésticas (...). As pessoas nascidas livres ou libertas relutavam em aceitar esse tipo de trabalho, socialmente estigmatizado, e as europeias, sobretudo as portuguesas, propunham-se a ser amas de chaves, acompanhantes, governantas e preceptoras, tendo escravos sob o seu comando para as tarefas desprezíveis e pesadas." (Alberto da Costa e Silva, p. 64)

Talvez, como o próprio Alberto da Costa e Silva aponta, seja injusto exigir uma postura muito diferente dos poetas da época. E sem dúvida o trabalho de Castro Alves teve um papel fundamental na divulgação da causa:

"Muito antes de aparecerem em livro, os poemas de Castro Alves já eram nacionalmente conhecidos, sabidos de cor e até imitados. Após sua morte, com a publicação de Os Escravos e A Cachoeira de Paulo Afonso, cresceu a lenda do belo poeta que morrera tão jovem e que fora também um grande tribuno é um dos precursores da causa abolicionista. Esta começará a ganhar adeptos, e cada vez mais numerosos, nos anos que se seguiram à 1870, até se transformar, inuma década mais tarde, num movimento amplamente majoritário. Para sua propagação em muito contribuíram os poemas de Castro Alves." (Alberto da Costa e Silva, p. 174)

Portanto, não se discute a importância e a profundidade da obra poética de Castro Alves, mas se discute o seguinte: qual o papel de um artista que se engaja em uma causa social?

Carlos Drummond de Andrade é outro poeta que ganhou a alcunha de "poeta público". Artífice da Semana de Arte Moderna, ocupante de cargo público na alta gestão no Mistério da Educação, poeta em cuja obra a temática social se apresenta com intensidade (principalmente em A Rosa do Povo), Andrade é considerado "o maior poeta público do século". Sua vida - fazer político, posturas pessoais, a própria forma de sua poesia - refletiram muito do seu pensamento. Mas os tempos de Andrade eram muito diferentes dos de Castro Alves. Seria justo exigir do jovem poeta baiano o mesmo engajamento político do modernista mineiro? Mais do que isso: seria necessário? E o que seria necessário para um poeta contemporâneo ser considerado um "poeta publico", engajado e atuante nas causas sociais?

Em tempos em que as posições políticas de cada um se tornam cada vez mais públicas, e em que o conceito de arte é cada vez mais fluido, a coerência entre obra artística e atuação política e social (e também individual, dependendo do caso) se torna ainda mais relevante. Mais do que isso: a coerência entre discurso público (e redes sociais constituem um espaço para o discurso público) e prática é cada vez mais relevante, sendo a autocrítica um processo importante - não apenas para artistas, mas também para todo mundo. Afinal, o discurso publico demanda uma responsabilidade grande - que talvez a maior parte das pessoas não esteja pronta para assumir -, que é ainda maior para os artistas.

A reflexão sobre Castro Alves ser ou não um "poeta público" talvez pareça menor diante da beleza da obra do poeta, mas deve despertar em nós o problema da responsabilidade pelo discurso público - este um problema cada vez mais contemporâneo e abrangente.

domingo, 27 de setembro de 2015

Ontem e Hoje

         








O filme Que horas ela volta? e os acontecimentos da cidade dos últimos 20 dias aguçaram a leitura da biografia de Antônio Frederico Castro Alves, muito bem escrita por Alberto da Costa e Silva.

Não consigo tirar da cabeça duas personalidades que foram tão significativas na infância de Castro Alves. Antônio José Alves, seu pai. Médico que cuidava dos escravos sem cobrar, dono de uma biblioteca considerada excelente, que além de gostar de desenhar, ajudou a conceber grande parte da vida cultural de Salvador. Abílio César Borges, seu professor. Introduziu novas ideias pedagógicas, misturando matérias, abolindo a palmatória e fundando os saraus literários, com participação de professores, pais e alunos.

Acredito que tenha sido a formação um dos pilares que fez com que Castro Alves soubesse enxergar além do que os escravos representavam para aquela sociedade. Ele os humanizou. E com essa sensibilidade, nadas mais ousado que querer mudar o mundo. “O rapaz sabia o que fazia: não escrevera aqueles versos para serem lidos em silêncio, mas para serem recitados para a multidão. ”
Jéssica a personagem do filme é uma jovem que diferentemente de sua mãe, empregada doméstica, teve oportunidade de estudar e coragem para seguir outro caminho. Saiu do nordeste do país para balançar os modelos ainda existentes no nosso país. Passou no vestibular e melhor do que tudo, fez sua mãe refletir sobre a própria vida.

Mas sobre o que Jéssica escreveria em seus poemas?

Ouso dizer que os jovens negros do 474 são diferentes de outros jovens negros do passado, eles querem viver sua juventude, sua falta de lazer no subúrbio, sua falta de oportunidade, sua falta de estudo. Eles não tem medo dos branquelos playboys da Zona Sul e nem da PM. Eles não tem nada a perder.

Mas sobre o que eles escreveriam em seus poemas?

Castro Alves é jovem tanto quanto eles. Um jovem que teve oportunidade e soube usá-la de forma a contribuir para a sociedade. Castro Alves escreveu de amor, de natureza, mas ficou mesmo conhecido como o poeta dos escravos.

Naquele tempo, que inveja minha, o teatro e os poemas eram armas contra a política. E hoje? Que ferramentas Castro Alves usaria? O que ele escreveria?


Peço permissão aos poetas de nosso grupo para escrever meu primeiro poema:

Ontem e Hoje
  Lendo Castro Alves ou lendo DaMatta
Negros escravizados ou jovens negros esquecidos
Vejo tudo igual na cidade que habito

Ouvindo a rádio Tupi ou ouvindo rádio Jovem Pan
Tuberculose mata um ou tuberculose mata cinco
Vejo tudo igual no Estado que habito

Vendo TV Manchete ou vendo TV a Cabo
Oligárquicas aumentando a riqueza ou Banqueiros ficando mais ricos  
Vejo tudo igual no país que habito

Notícias trazidas de navio ou internet que acesso todo dia
Imigrantes sendo baleados ou imigrantes sendo afundados
Vejo tudo igual no planeta que habito





sábado, 26 de setembro de 2015

Castro Alves, Gregório Duvivier e o protagonismo dos movimentos sociais



Para esse encontro do Grupo de Estudos de Botafogo, foi-nos proposto que lêssemos uma biografia de Castro Alves, quase tão curta quanto sua própria vida. Intitulada “Castro Alves, um poesta sempre jovem”, o livro escrito de forma belíssima por Alberto da Costa e Silva nos faz mergulhar no universo do segundo reinado brasileiro, e nos mostra como a ideia da abolição da escravatura no Brasil, então um absurdo na primeira metade do século XIX, vai ganhando força e conquistando apoios na sociedade brasileira.

Castro Alves, um poeta brasileiro branco e remediado, esteve na vanguarda do movimento abolicionista brasileiro e, embora tendo morrido muitíssimo jovem, aos 24 anos, foi uma peça de crucial importância para que a ideia de libertação dos escravos comçasse a circular na sociedade oitocentista no Brasil.

Alberto da Costa e Silva advoga que Castro Alves tenha conseguido muito apoio às suas ideias menos pelo conteúdo das ideias em si (que eram quase incendiárias de tão libertárias), do que pela forma de apresentação das mesmas. Castro Alves era bonito, alto, sedutor. Dono de uma voz grave e penetrante, nas palavras de Alberto da Costa e Silva, Castro Alves utilizava sua boa aparência e seus dons de retórica de forma a se fazer ouvir nas ruas e nos teatros da Bahia, de Pernambuco e de São Paulo. Além disso, claro, era muito talentoso nas poesias que escrevia.

A primeira coisa que me ocorreu após a leitura, embora disso não decorra um desdobramento muito grande de discussão histórico-sociológica (talvez filosófica) é o estudo da voz ao longo do tempo histórico. A história da voz na humanidade é uma das coisas mais fascinantes e, ao mesmo tempo, mais difíceis de serem estudadas. Sobre Castro Alves, resta-nos o registro, posto que tudo é ainda muito recente no tempo histórico, de que sua voz era grave, sedutora e penetrante. Mas não há qualquer registro da voz de Castro Alves.

As pinturas e as estátuas dão conta da reconstrução de alguma imagem de como viviam os povos e as pessoas que vieram antes de nós, (especialmente aqueles que viveram antes das invenções dos registros de captura de som e imagem). Além disso, essas imagens nos ajudam a entender o senso estético de uma época. Fósseis nos permitem reconstruir como era o corpo das pessoas. Restos de comida em arcadas dentárias nos permitem inferir hábitos alimentares antigos. Tecidos, joias, objetos de uso pessoal, embarcações, várias dessas coisas podem ser encontradas em sítios arqueológicos de forma a perimitir um aumento incremental da compreensão da vida em outros tempos. Mas e a voz? Se de tudo fica um pouco, como diz Carlos Drummond de Andrade em seu poema ‘Resíduo’, parece que da voz não fica nada. A música ainda é transmissível, as notas, os acordes, as formas de tocar um tambor. O conteúdo daquilo que a voz expressa também fica, as histórias, os contos de terror e de mistérios, as lendas, os provérbios. É claro que é razoável supor que a forma da voz também permanece, se entendermos que foi a retórica de Castro Alves, mais do que suas palavras, a responsável pelo legado abolicionista que ele nos deixou. Isso é ainda mais razoável se borrarmos a fronteira entre o que é forma e o que é conteúdo num discurso. Enretanto, ainda assim, é fascinante como, ainda que tentem reconstruir as entonações das falas (certamente por meio dos registros escritos e pela oralidade de povos mais tradicionais), do timbre não nos sobra nada. De minha parte, entendo o timbre como uma das últimas fronteiras da reconstituição do homem no tempo histórico. Mais do que isso, o timbre (ainda que os arquólogos mais esforçados se debrucem sobre os fósseis de cordas vocais que porventura encontrem) permanece no homem presente como uma limitação. Lembrando da minha trajetória agnóstica, lidar com o timbre do homem do passado é, de certa forma, aceitar uma ignorância ante aquilo que é absolutamente incognoscível. ‘Palavras, o vento leva’, diz a sabedoria popular. ‘Do boi, só não se aproveita o berro’, diz outro ditado. Tanto a ciência quanto a história colocam o seu ‘No passarán!’ quanto à apreensão do timbre antigo, da voz que já passou. Presente, mas irrecuperável. Entendida, mas incognoscível. Clara, mas misteriosa. É curioso e instigante perceber como a voz, certamente uma das coisas que temos como mais humana, mais imanente ao homem, é, por outro lado, aquilo que mais se aproxima daquilo que se nos apresenta como o divino, o transcendente.

A história da voz é uma coisa que realmente me fascina, embora nunca tenha me dedicado a estudá-la. Se alguém souber de algum material interessante nesse sentido, agradeço indicações.

Depois dessa breve digressão sobre a voz, é a hora de abordarmos o ponto nevrálgico da discussão que esse livro me despertou: o protagonismo.

A discussão sobre o protagonismo está em praticamente todos os movimentos sociais na atualidade. O movimento negro dz que são os negros que devem capitanear o movimento. O feminismo diz que são as mulheres que devem propor a pauta das lutas e assumir a liderança de suas atividades etc...

Ocorre que muitas das vezes, o protagonismo das lutas vem acompanhado de um sentimento de quase exclusividade do movimento, que repele os membros que não se equadram na categoria, na ‘minoria’, na causa em si das lutas. Nesse sentido, há uma discussão enorme em curso no movimento feminista se homens podem ou não se dizer feministas. O movimento gay, por outro lado, não engendrou essa discussão (ao menos eu não me recordo): subrepticiamente, o movimento GLS passou a se denominar LGBT e excluiu os simpatizantes da sua luta.

Sobre esse assunto, minha opinião é a de que protagonismo é importante. Mas é importante não destruir as pontes. Mais do que isso, é importante ter aliados do lado de lá. Brancos racistas não têm pudores em espalhar sua ideologia racista por entre brancos e negros. Por outro lado, alguns negros acham que brancos devem ficar completamente apartados da ideologia do movimento negro. (o verbo ‘apartar’ foi utilizado de forma intencional).

Esse discurso parece reacionário, mas vou tentar explicar porque (eu acho que) ele não é.

A abolição da escravatura foi pensada, engendrada e levada a cabo por pessoas brancas. Isso não invalida nem diminui a luta dos próprios negros na mesma direção. O Quilombo dos Palmares, a Revolta dos Malês e a Revolução Haitiana são exemplos do protagonismo negro. Mas é importante reconhecer quando, do outro lado, pessoas caminham na mesma direção. Castro Alves, José Bonifácio e Rui Barbosa foram abolicionistas brancos. A Princesa Isabel, o ovo da história (ora é do bem, ora é do mal; os historiadores, assim como os nutricionistas, nunca se decidem), também foi abolicionista branca.

Fico imaginando o que teria acontecido se os escravos chegassem para o José Bonifácio e para o Castro Alves e dissessem: ‘Cara, essa luta não é de vocês. Vocês não são bem-vindos aqui.’ Ou ainda, chegar pra Princesa Isabel e dizer: ‘Que absurdo! Você, branca, querendo conceder alforria para todos os escravos. Não vai assinar nada! Ou essa lei vai ser assinada pelos pretos, ou não vai ter droga de Lei Áurea nenhuma!’

A menos que a coisa aconteça pelas vias revolucionárias, como ocorreu no Haiti, onde todos os escravos da ilha se rebelaram e proclamaram a independência do país, ou na revolução comunista de 1917 na Rússia, é importante que os movimentos dialoguem com as elites, mas mais do que isso, que tenha pessoas infiltradas lá.

Zumbi dos Palmares é importante, mas Castro Alves também é. Pelas vias reformistas, se não aditirmos a revolução (e acho que tenho me enquadrado um pouco nessa categoria), vai ter que ter diálogo, não vai poder ter movimento fechado em si mesmo.

Nesse sentido, dá pra traçar um paralelo interessante entre Castro Alves e Gregório Duvivier. Castro Alves, assim como Gregório Duvivier era branco, bonito e talentoso. Ambos são poetas, bons poetas, o que os torna aclamados pela crítica; dessa forma, eles têm passe livre na intelectualidade. Ambos são libertários e de esquerda. A intelligentsia consegue lidar com libertários de esquerda (desde que pertençam à própria elite), mas o grande público, o ‘povo’, o ‘brasileiro médio’ é conservador (essa é uma afirmação temerária, mas assumo o risco). Ambos desenvolvem, então, uma estratégia muito parecida, para atingir esse público: dar às pessoas o que elas querem ver, mas colocar lá a sua ideologia. Nesse sentido, Castro Alves declamava em teatros e fazia com que seus poemas fossem disseminados por entre cadernos de moças adolescentes. Essas pessoas que o aplaudiam nos teatros não estavam lá porque eram abolicionistas: elas estavam lá para ver um homem branco, bonito, elegante, da elite, que declamava seus poemas de forma magistral. Só que esses poemas eram carregados de ideologia abolicionista que, pouco a pouco, através desse artifício, iam penetrando nas camadas populares. De modo semelhante, Gregório Duvivier aposta no humor e tem um séquito de seguidores e espectadores em seu canal de vídeo no Youtube, o ‘Porta dos Fundos’. As pessoas que clicam num vídeo do Porta dos Fundos não o fazem, muitas das vezes, porque querem ver ‘um conteúdo de esquerda’. As dez milhões de pessoas que assinam o canal clicam nos vídeos porque querem ver textos bem-humorados, engraçados, intepretados por bons atores. Só que nesses três minutos de cada vídeo, a equipe do Porta dos Fundos vai disseminando por entre as pessoas, paulatinamente, uma ideologia libertária e de esquerda, apoiando causas como a legalização da maconha, o aborto, a laicidade do estado, etc. Dessa forma, ambos, Castro Alves e Gregório Duvivier, em seus devidos tempos históricos, fazem parte da elite intelectual brasileira e se valem dessa prerrogativa para fazer penetrar nas camadas populares uma ideologia de empoderamento dessas camadas em relação à própria elite da qual fazem parte.

Entendo que isso vá de encontro ás vivências de movimento social de muitas pessoas, mas de minha parte, realmente acho que Castro Alves e Gregório Duviver são importantes, em seus devidos tempos, como agentes das causas libertárias.

Mais uma vez, a menos que optemos por uma via revolucionária, o que não faz a minha cabeça (por ora), é importante que haja um homem branco, rico e heterossexual, que defenda os direitos das mulheres, dos pobres, dos pretos e dos gays.

Sim, protagonismo é importante, embora eu não esteja enfatizando muito esse ponto. Mas é importante entender que os movimentos, assim como a vida, não é feita só de protagonismos. Acho que os movimentos sociais não devem recusar alguém que tem o canal mais acessado do Youtube no Brasil e uma coluna de jornal na Folha de São Paulo.

De minha parte, aceito o abolicionismo de Castro Alves, aceito o posicionamento à esquerda do Gregório Duvivier, aceito os homens feministas, aceito os simpatizantes. Aceito todo mundo que vier contribuir para a construção de um mundo mais justo, mais igualitário e que respeite as diferenças, independente de ser preto, branco, pobre, rico, homem, gay, hétero, bi, trans, etc. Vivência é importante, penetração nas camadas populares é importante, representação parlamentar também é importante (alô Jean Wyllys!).

Tem que ter protagonista sim, mas é só no diálogo com os coadjuvantes que a cena pode acontecer.

Obrigado, Castro Alves, por ter sido um de nós sem o sê-lo; por ter sido a voz, ainda que com as distorções provocadas pela fata de vivência, dos que não conseguiam se fazer ouvir.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Mais Alberto, menos Antônio.

ACS é um escritor brilhante. O livro flui fácil, muito bem escrito, de maneira bela, e clara, bem organizada e distribuída. Mesmo no capítulo em que faz suas considerações pessoais pela vida e obra de Antônio Castro Alves, ACS o faz ponderadamente, tendo com seus argumentos o mesmo cuidado que tem com as palavras e a organização do texto. Uma obra irretocável, do ponto de vista do escritor. 

Já o poeta... enfim, confesso que o modo oitocentista, Victor-Huguiano, melodramático já deu. Aqui concedo mais esta ao Paulo Prado, quanto mais eu leio, mais vou me aproximando de argumentos que ele expôs no Retrato, ainda que sem concordar totalmente com nenhum deles. Não considero o Romantismo um dos flagelos da formação da sociedade brasileira, mas o estilo me cansa. 

Isto posto, vamos aos pontos interessantes do livro e da vida e obra de Castro Alves.  

Ele era bem bonito. Imagino ele jovem sedutor declamando poemas, o mundo a seus pés. Irresistível. 

O modo como ele descreve a África, ainda que liricamente, baseado na versão orientalista francesa, já criticado por ACS, expõe um fato importante; Castro Alves jamais conversou minimamente com qualquer um dos pretos que o circundavam. Por mais que sua dedicação à causa abolicionista, que apoiou desde a primeira hora, fosse legítima e verdadeira, isso não despertou nele interesse em conhecer nem ao menos uma história de um negro ou negra, que certamente havia à sua volta aos montes. ACS dá explicações genéricas para isso, dizendo que não era usual que brancos se interessassem por ouvir negros, ou que estes fizessem confidências àqueles. Ora, também não era habitual ser abolicionista. Se Castro Alves tinha ideias suficientemente progressistas para apoiar a república e o voto feminino, era de se imaginar que tivesse uma consideração mais humana sobre os negros, e que lhes desse um mínimo de voz, em especial se boa parte de sua obra está diretamente relacionada aos suplícios da escravidão. Mesmo após a importante redução do tráfico negreiro na segunda metade do século XIX, havia certamente fontes vivas e documentação sobre o negro e a África de onde vieram os escravos da época.  

No léxico atual de direitos humanos, Castro Alves estaria assumindo um protagonismo abolicionista sem conhecer direito de quem falava. Uma pena. Mas, concordando com ACS, sem dúvida seu posicionamento trouxe visibilidade ao abolicionismo, uma visibilidade que escravo algum poderia dar naquele contexto.  

Destaco também a preocupação de ACS em imaginar como Antônio devia se sentir tendo escravos, ou como se virar sem eles. Muitos de nós já nos vimos presos a situações em que nos aproveitamos de algum privilégio que de maneira geral condenamos. Nem todos teremos biógrafos do nível de Alberto da Costa e Silva. 

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Os filhos de Fabiano não têm nome.

Uma história de resistência. No decorrer da leitura, fui assoberbado pelo estilo de Euclides, e achei que esse seria o tom deste comentário. No entanto agora, apenas fechada a última página, o que me vem não é uma crítica ao tom romântico-realista do autor, mas uma tristeza profunda.

Que massacre.

Vidas inúteis, de gente pobre e mestiça. Não houve qualquer insurreição em Canudos. Percebo somente um povo perdido agarrado às ilusões e delírios de um profeta. Passados mais de cem anos, o Conselheiro não teve seu Paulo de Tarso para contar-lhe a história, nem um livro sagrado — tirante massa profícua de cordéis — para propagar seus ensinamentos e façanhas.

Durante os relatos da campanha, todo o tempo me vinham à cabeça os incontáveis massacres semelhantes, dos índios, das missões, do Paraguai, dos pretos, pobres, desempregados, das favelas removidas até hoje, para ficarmos no Brasil. Gaza acontece todos os dias. E das favelas não removidas, que vivem em permanente estado de sítio, com suspensão de liberdades individuais, oportunidades e direitos.


Forças desproporcionais são usadas para reprimir e assassinar pessoas pobres de tudo, que não têm como sair dessa situação, e ainda são culpadas por isso. Toda a sociedade é induzida a considera-los os vilões, responsáveis pela própria ruína e também a de todo o país. São ameaças à República.

Fiquei com vontade de conhecer o sertão. De ter contato com essa gente, que vive num lugar onde, como tantos no mundo, nenhum ser humano deve viver. 

Quando fechei o livro, me veio uma tristeza de dentro, profunda. Senti algo parecido assim quando houve o terremoto no Haiti, a última guerra contra Gaza, as enchentes de 2011 em Petrópolis, quando vi meu povo embaixo d'água. 

Existem categorias de seres humanos. Poucos são aqueles cuja vida tem qualquer valor. Os meninos, os filhos de Fabiano não têm nome. A construção cultural de que os homens são todos iguais é recentíssima, mal tem 300 anos. Penso nisso toda vez que vejo um homem virando o pescoço quando uma mulher passa, fazendo um comentário machista. O bordão de muitos movimentos sociais, que começa com "a nossa luta é todo dia..." é absolutamente verdadeira. Essa igualdade não é dada. É conquistada em uma argamassa de sangue, terra, e ossos todos os dias, com avanços e recuos.

Para evitar a desesperança irrestrita, repito um mantra todos os dias: o mundo está uma merda, mas já foi muito pior. 

Fratricídio


Acabo de ler “Os Sertões”, de Euclides da Cunha. É uma leitura longa, difícil, fastidiosa. Mas, como já dizia Fernando Pessoa: ‘quem quer passar além do Bojador, tem que passar além da dor’. Ou, alternativamente, como já vi escrito em camisetas do pessoal lá da academia: ‘No pain, no gain’.  Ninguém disse que seria fácil.
Neste livro belo e tão árido quanto o próprio sertão que descreve, Euclides da Cunha se propõe a narrar a campanha militar de Canudos nos últimos anos do século XIX. Acaba fazendo um retrato, tão fiel quanto possível, daquele homem e daquele espaço que ficaram esquecidos ao longo dos séculos. Não civilizados como os homens do litoral ou os paulistas do interior (que à essa época já despontavam como cafeicultores e pré-industriais), mas também não privados de todo contato com a ‘civilização’, como os índios amazônicos, o sertanejo nordestino, o ‘jagunço’, no descrever de Euclides, emerge como algo entre o civilizado e o selvagem. Nem tão selvagem que merecesse a proteção dos jesuítas (ou da FUNAI, nos dias de hoje), nem tão civilizado que merecesse a comoção da classe média após algum ataque. Sem proteção nem de um lado nem de outro, sem ser morador dos Jardins e sem ser índio do Alto Xingu, os jagunços foram a Geni da primeira república.
A primeira coisa que me ocorreu quando acabei de ler o livro foi um trecho sobre o Velho do Restelo, que está no livro ‘Os Lusíadas’, de Luís de Camões. Esse trecho, que fala sobre a época das grandes navegações portuguesas, narra o momento no qual os portugueses estão à beira da praia partindo para lugares ignotos, em que chega um velho para lhes falar. Eis o que o velho diz:

"Ó glória de mandar! Ó vã cobiça
Desta vaidade, a quem chamamos Fama!
Ó fraudulento gosto, que se atiça
C'uma aura popular, que honra se chama!
Que castigo tamanho e que justiça
Fazes no peito vão que muito te ama!
Que mortes, que perigos, que tormentas,
Que crueldades neles experimentas!

- "Dura inquietação d'alma e da vida,
Fonte de desamparos e adultérios,
Sagaz consumidora conhecida
De fazendas, de reinos e de impérios:
Chamam-te ilustre, chamam-te subida,
Sendo digna de infames vitupérios;
Chamam-te Fama e Glória soberana,
Nomes com quem se o povo néscio engana!

- "A que novos desastres determinas
De levar estes reinos e esta gente?
Que perigos, que mortes lhe destinas
Debaixo dalgum nome preminente?
Que promessas de reinos, e de minas
D'ouro, que lhe farás tão facilmente?
Que famas lhe prometerás? que histórias?
Que triunfos, que palmas, que vitórias?

A conexão d’Os Sertões com esse trecho do Velho do Restelo são várias. A primeira delas é que se trata de uma saída para um lugar completamente desconhecido. Canudos era um lugar longínquo e distante, tanto quanto o Novo Mundo e as Índias, que os portugueses tão agudamente buscavam. Outra semelhança é a travessia. Se o sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão, a gente não sabe. O que a gente sabe é que tão tumultuada, perigosa e cheia de privações quanto a travessia marítima dos portugueses foi a travessia dos sertões pelos soldados, no caminho que vai do litoral baiano até Canudos. E, por fim, o último ponto de conexão é a causa. Enquanto os portugueses se lançaram ao mar sob os auspícios da Majestade portuguesa, os soldados se embrenharam caatinga adentro para defender a República. Essas causas são válidas, na medida em que são encaradas como nobres pelos tripulantes/soldados. Mas que famas lhes prometerá? que histórias? Que triunfos, que palmas, que vitórias?
Fico pensando no soldado que saiu de sua boa, velha e mansa vida nos quartéis das cidades brasileiras para ir para Canudos. Ele saiu dizendo às suas mães, noivas, irmãs e esposas que iria a Canudos defender a república. Mas depois de uma longuíssima jornada em que passou fome e sede, chegou a Canudos já roto, esfarrapado, fraco, vacilante. Chegada a hora do combate, o soldado já não era diferente do jagunço contra o qual atirava.
Tratava-se portanto de uma guerra de iguais. Aqueles que defendiam a república e aqueles que tinham Antonio Conselheiro como enviado de Deus à Terra eram iguais: constituíam-se da mesma paleta de cores desuniformes, eram pobres, mal sabiam porque lutavam uns contra os outros. Mas eram movidos pela República, que os veio salvar das agruras do Império; eram movidos pelo enviado de Deus, que os veio salvar dos pecados da Terra. Eram iguais até na esperança em suas entidades abstratas.
Pode-se dizer que existe algo em curso hoje, que muito se parece com essa situação: o genocídio da juventude negra do país. Jovens pretos da periferia são mortos por jovens pretos policiais. O genocídio da juventude negra no Brasil é, de certa forma, um fratricídio. Irmãos matando irmãos, iguais matando iguais.
Fico pensando no policial que sai de sua não tão boa, não tão velha e não tão mansa vida dos quartéis das cidades brasileiras para ir para a periferia. Ele sai dizendo às suas mães, noivas, irmãs e esposas que vai para favela ‘matar vagabundo’, ‘acabar com a raça dessa bandidagem’. Esse policial se considera um homem de bem, e sai de casa imbuído da certeza de que sai para fazer a coisa certa. São dotados de um forte sentimento de maniqueísmo (como os soldados, como os jagunços), de que estão lá para fazer o bem: mas só o que fazem é matar os seus semelhantes, numa sangrenta e diuturna luta fratricida.
Canudos acabou, mas não acabou esse tipo de relação que fica tão bem marcada nesse episódio. Antes existindo em relação aos soldados, e hoje nas mais diversas operações policiais pelo país, o que existe hoje é essa estranha relação de cumplicidade. Embora, dentro dos paradigmas que escolhemos, seja difícil aceitar que alguém escolha ser policial, agindo como um policial típico e fazendo os achaques que os policiais fazem, é importante não culpá-los, ao menos pela escolha inicial da profissão. Numa sociedade em que aquele que é preto e pobre já nasce num front de combate, é razoavelmente inteligente escolher o lado que tem legalmente as armas, e que recebe um tapinha nas costas dos poderes instituídos. Ser policial hoje no Brasil é aceitar essa cumplicidade com os donos do poder. Às vezes, essa relação chega a parecer uma relação de vassalagem, uma vassalagem negra, em que a escolha de ser policial é como um pagamento de tributo às diversas instâncias brancas do poder instituído, aos suseranos das empreiteiras e dos bancos, alheios a toda essa guerra. É como se fosse uma vassalagem porque escolher ser policial é uma opção, embora nem sempre verdadeira, por comprar um pouco mais de proteção, porque no front de combate, dentro das duas únicas opções fornecidas, matar é a única chance de não ser morto.
Foi à memória desses que mataram morrendo e que morreram matando que Euclides da Cunha escreveu ‘Os Sertões’. Aliás, tal como ‘Eu não sou cachorro, não’, do Paulo César de Araújo, Euclides da Cunha resgata uma história que por pouco não caiu no esquecimento. Não fosse Euclides e essa história ficaria marcada pelas impressões sensacionalistas e pouco profundas dos jornais da época. Nesse trabalho investigativo, Euclides da Cunha, que esteve em Canudos, confere a todas aquelas pessoas que viveram aquele episódio o direito à memória. É importante lembrar, registrar, não esquecer.
Mas às vezes parece que todo esse blablablá de direito à memória não passa de utopia dos esquerdinhas que somos. Afinal de contas, enquanto jagunços e soldados se matavam no interior do Brasil, a elite brasileira da capital federal discutia os livros de Machado de Assis e acompanhava as modas da Rua do Ouvidor. De qual direito à memória exatamente estamos falando quando a chacina de Osasco/Barueri foi apenas mais um assunto corriqueiro, quando muito, daqueles que discutiam o novo filme do Godard e planejavam mais uma viagem para a Europa sentados confortavelmente num dos bares da Vila Madalena?

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Era só mais um Silva

No excelente - e saborosíssimo de se ler - livro "Eu Não Sou Cachorro Não", Paulo César de Araújo nos ensina o quanto nosso gosto musical - que enganosamente consideramos "intuitivo" e sujeito ao nosso livre arbítrio - pode ser moldado por escolhas políticas, discursos historiográficos e ideologias de críticos, pesquisadores, historiadores, musicólogos - e como nem sequer sonhamos com isso.

Ao analisar os cantores "bregas" que fizeram sucesso ao  longo dos anos 60, 70 e 80, Araújo nos faz refletir sobre temas muito ligados não apenas à formação cultural do nosso país, mas também às escolhas que fazemos, como sociedade democrática que sonhamos ser, dos discursos históricos que irão prevalecer para as atuais e futuras gerações.

A primeira reflexão é de como a História se transforma em histórias. Cito um breve trecho do livro:    

"Como enfatiza o sociólogo francês Michael Pollak, a História está se transformando em histórias - plurais e diferenciadas - até mesmo sob o aspecto da cronologia. O autor destaca que trabalhos de história oral na Alemanha têm apontado que cortes políticos consagrados pela historiografia tradicional, como a tomada do poder pelo Terceiro Reich em 1933, ou a criação da República Federal Alemã em 1949, não tinham sido vividos como tão marcantes pelos segmentos populares daquele país. Nas histórias individuais do povo alemão aparecem com muito mais destaque as datas de 1935 - quando pela primeira vez se assistiu à estabilização do emprego e da renda familiar - , e 1948 - ano da reforma monetária. (...) Portanto, afirma Pollak, devemos estar atentos à existência de histórias plurais, de cronologias plurais em função de uma vivência diferenciado das realidades. (53) Isto ajuda a explicar, no caso brasileiro, a pouca identificação dessa geração de cantores românticos com os acontecimentos políticos de 1968. É possível até dizer que eles assistiram à decretação do AI-5 também "bestializados”, sem compreender o seu significado.(54) E, no entanto, mesmo estando "desligados" da questão política - que é uma das esferas, entre tantas outras, da vida cotidiana - , a produção musical desses artistas vai denunciar o autoritarismo vivenciado pelos segmentos populares em nosso país."

O debate História x ficção (e será mesmo uma oposição necessária?) assombra historiadores e cientistas políticos, mas passa ao largo dos nossos estudantes secundaristas de história, que apenas querem decorar os fatos dos livros didáticos de História para tirarem uma boa nota no vestibular. Mas qual será o discurso histórico que permanecerá neste jovem estudante depois que ele se formar - e de que modo este discurso pouco pluralista (e excludente de diversos aspectos culturais importantes da nossa formação cultural) iá influenciar nas decisões políticas, sociais e mesmo culturais que estes jovens tomarão como futuros advogados, engenheiros, arquitetos, economistas, políticos, professores, gestores públicos? Não seria mais produtivo, desde o início da nossa formação, sabermos que existe uma pluralidade de discursos históricos - abrindo ao arbítrio de cada um a possibilidade de descobrir o seu próprio discurso histórico?

Outra reflexão importante levantada pelo autor é a construção da memória individual através da elaboração da memória coletiva - e o papel dos "enquadradores" nesta construção. Cito novamente um breve trecho do livro:

"Em estudo clássico sobre a memória, o francês Maurice Halbwachs destaca a relação direta existente entre as recordações de cada pessoa e as experiências vividas no grupo social, desenvolvendo um conceito de memória que, para além do fenômeno individual e psicológico, a privilegia como um fenômeno coletivo e social. "Nossas lembranças permanecem coletivas, e elas nos são lembradas pelos outros, mesmo que se trate de acontecimentos nos quais só nós estivemos envolvidos, e com objetos que só nós vimos. É porque, na realidade, nunca estamos sós." (571) Isto significa que as recordações de cada indivíduo dependem de seu relacionamento com a classe social, com os grupos de convívio e os grupos de referência peculiares a este indivíduo. É o universo no qual nós estamos inseridos que determina o desempenho da nossa memória e fornece as categorias com as quais cada um de nós elabora o seu pensamento. E é esta comunhão de valores que compartilhamos com os membros do grupo social e o entendimento comum dos símbolos e dos significados que definem o caráter social das memórias individuais. Portanto, se evocamos determinadas canções - e esquecemos outras - , é porque o nosso grupo social, a situação presente, nos fazem recordar ou esquecer.

Le Goff destaca que a memória coletiva não é somente uma conquista, é também um instrumento e um objeto de poder, configurando-se um dos mais sólidos alicerces da dominação Da mesma forma que os fatos são conservados e comemorados, diz o autor, "os esquecimentos e os silêncios da História são reveladores deste mecanismo de manipulação da memória coletiva". (573) Assim, o ato de esquecer não está relacionado apenas ao aspecto voluntário, estratégico e harmônico; pode ser também fruto de conflitos e divergências, de manipulação exercida por grupos dominantes sobre dominados, ou de vencedores frente a vencidos. 

No campo específico da música popular brasileira - tema deste livro - a memória é também um objeto de disputa e da mesma forma apresenta os seus "enquadradores" (críticos, pesquisadores, historiadores, musicólogos). Trata-se então de analisar agora que grupos sociais eles representam e de que critérios se valem para determinar quais as canções ou compositores que devem ser esquecidos ou preservados na memória nacional."

Se a memória coletiva - parte estruturante da memória individual - é objeto de disputa e construída, de maneira estruturante por críticos, pesquisadores, historiadores, musicólogos, a importância destes profissionais aumenta e cresce em grandeza. O debate sobre a formação destes profissionais é fundamental - muito embora apenas recentemente a profissão de historiador tenha sido regulamentada. Ademais, os financiamentos públicos para obras do tipo "enciclopédicas" precisa ser cuidadosamente analisado, principalmente sob a luz da pluralidade de discursos necessária para que não tenhamos uma memória coletiva extremamente seletiva *(creio ser impossível não ser seletiva)* e excludente. E isso também é um exercício de democracia. 

Por fim, a discussão sobre tradição e modernidade. Ótimo debate trazido por Araújo para nos ajudar a entender porque conseguimos identificar facilmente certos cantores nacionais enquanto os outros são esquecidos - ou nem mesmo considerados em coletâneas e arquivos públicos de instituições como o Museu da Imagem e do Som (MIS):

"Enquanto isso, toda uma outra vasta produção musical popular que não está identificada nem à "tradição" nem à "modernidade" encontra serias dificuldades para obter reconhecimento da crítica ou espaço na historiografia. (590) E é o que acontece com esta geração de cantores/compositores considerados "cafonas". Afinal, nomes como Waldik Soriano, Nelson Ned ou Agnaldo Timóteo estão muito longe de qualquer coisa do que se considera de "raiz" e "tradição" ou "modernidade" e "evolução". Ao contrário, são geralmente associados a "atraso", "subdesenvolvimento" e "pobreza". Na visão positivista de "linha evolutiva da música popular", estes artistas estariam muitos rolos atrás daqueles identificados à "modernidade".  Portanto, fora da "tradição" ou da "modernidade", não há salvação. Compreende-se assim porque esta geração de cantores/compositores tem sido relegada na maioria das "memórias enquadradas" da nossa música popular e não tenha tido - até agora nenhuma voz na historiografia.

E nisto reside todo o mistério do "brega” ou "cafona": recebem estes adjetivos aqueles artistas e aquela produção musical que o público de classe média não identifica, ou encontra dificuldade de identificar, à "tradição" ou à "modernidade". Quanto mais longe dessas duas vertentes, mais perto do "brega", e vice-versa. Creio que esta explicação acaba de uma vez por todas com aquela máxima de que brega é uma coisa que todo mundo reconhece quando ouve mas não sabe definir o que é. Até porque, algumas tentativas de definição não me pareceram muito satisfatórios. 

(...)

O cantor ou compositor deste país que não tiver a sua obra musical identificada à "tradição" ou à "modernidade" está condenado ao desprezo da crítica e ao esquecimento por parte dos "enquadradores" da memória da nossa música popular. E é o que acontece hoje com artistas como Agnaldo Timóteo, Nelson Ned, Waldik Soriano, Odair José e vários outros que não se enquadram em nenhuma daquelas duas vertentes - vão todos para o ralo comum do "brega" ou do "cafona". Mas de que maneira esta geração de cantores/compositores analisa este fato? "Não existe música brega; o que existe são analistas preconceituosos", define Agnaldo Timóteo."

A proposta trazida pelo autor de Eu Não Sou Cachorro Não para explicar o limbo em que se encontram autores como Waldick Soriano, Agnaldo timóteo, Nelson Ned, Luiz Ayrão é uma ótima tese e nos faz pensar se também não fazemos com autores contemporâneos um exercício de seletividade semelhante. Vamos fazer um rápido exercício de memória:

"Era só mais um Silva
Que a estrela não brilha 
Ele era funkeiro mas era pai de família
É só mais um Silva
Que a estrela não brilha 
Ele era funkeiro mas era pai de família" 

Logo nas primeiras palavras você identificou que se trata do Rap do Silva, composto e gravado há quase 20 anos atrás pelo Mc Marcinho. Relegado ao gueto do funk à época do seu lançamento, as produções musicais do tipo "charme" e "funk melódico" ganharam recentemente um enorme espaço nas festas, casamentos, aniversários e boates, superando a seletividade do mundo funk ao qual foi confinada à época do seu lançamento. Mas e se o trecho de música fosse esse aqui:

"Em meio aos holofortes vai assistir eu dançar e beber
Todos me olham sem eu perceber
Dona da noite sou eu, deu pra ver

E no meu camarote é assim
A mídia e o Ibope focados em mim
São vários celulares virados pra cá
E eu vou descendo na intenção de provocar

Desço com o copo na mão, assediada
Uma selfie no Instagram, tô estourada
As inimigas ficam pra morrer
Quando me ver descer, descer, descer"

Aí você não faz a menor ideia, né? Bem, eu também não fazia. É uma letra da Mc Marcelly, atualmente restrita ao nicho do funk, mas já considerado por alguns como representante de uma nova vertente de autoras femininas que produzem letras voltadas para a autonomia e empoderamento femininos - com o vocabulário típico do "funk batidão", é claro. Em quais festas, casamentos, aniversários e boates as músicas da Mc Marcelly tocarão - agora ou daqui a alguns anos? E quais "enquadradores" irão se lembrar dela no momento de compor a historiografia da música brasileira, no futuro?

O exercício de reflexão - pessoal, ams também como sociedade democrática que desejamos ser - é muito importante, e sem sombra de dúvida o maior mérito da obra de Araújo é o de nos mostrar que democracia não se constrói só com leis, instituições e articulações políticas, mas também nos aspectos culturais mais cotidianos e na construção dos discursos históricos que passaremos para as futuras gerações.

Talvez seja uma questão de tempo. Como bem o disseram Agnaldo Timóteo e Luiz Ayrão: o reconhecimento de uma obra artística encontra certa base no processo social; a avaliação da obra de um compositor de música popular no Brasil pode mudar e tem mudado com o tempo. Mas o tempo, por si só, não fará muito se não fizermos o esforço - individual e coletivo - de repensarmos aspectos importantes da nossa cultura, da nossa história e até mesmo do que queremos ser como democracia. Não somos cachorro não: somos uma jovem democracia, buscando ser cada vez mais democrática e inclusiva.