segunda-feira, 6 de julho de 2015

Brasil, o país das drogas: um olhar a partir de Gilberto Freyre



É quase covarde ter que comentar alguma coisa sobre “Casa-Grande & Senzala”, do Gilberto Freyre, uma vez que parece que tudo que precisa ser dito já o foi, neste livro. Mesmo assim, prometo fazer um esforço, especialmente no sentido de elucidar alguns elementos que aparecem de forma um pouco mais turva.

“Casa-Grande & Senzala” é um livro incontornável. Não dá para passar sem ele. Sinto, inclusive, uma certa vergonha de ter defendido uma tese de doutorado sem que Casa-Grande & Senzala não tivesse tido de mim nem uma olhadela de soslaio. Li, portanto, e após a certeza de que este deveria ser um livro obrigatório, fiquei feliz em saber que em algum momento de nossa história recente, houve uma lei estadual pernambucana (a Lei nº 4.666, de 20 de agosto de 1963) que autorizava uma edição popular de “Casa-Grande & Senzala”, a preços acessíveis, edição que veio a público em 1967.

É evidente que em história não há nada definitivo, mas algumas coisas se superam mais rápido do que outras. “Casa-Grande & Senzala” é um livro vivo, cujas ideias centrais ainda dão de conta de explicar muita, mas muita coisa mesmo a respeito da nossa realidade social.

Fico feliz, por um lado, de poder lê-lo na pós-aurora do século XXI, em que é, possível, com algum grau de criticidade, separar alguns aspectos menos corretos, menos precisos ou menos adequados desta obra, em oposição às muitas virtudes que o livro apresenta.

Antes de nos aprofundarmos em algumas análises, é preciso expor a lógica de funcionamento de “Casa-Grande & Senzala”. Trata-se de um livro corajoso, publicado em 1933, isto é, época em que o discurso racialista encrudescia, que exalta a mestiçagem do povo brasileiro. Estruturado em cinco capítulos (um introdutório, um sobre os índios, outro sobre os portugueses e os dois finais sobre os negros, todos mostrando como cada uma dessas ‘raças’ contribuiu para a formação dos brasileiros), o livro defende a tese de que as relações patriarcais dos engenhos, isto é, a lógica opressora dos senhores de engenho das casas-grandes sobre os negros nas senzalas, e também sobre os índios, é capaz de explicar muito de nossas vivências e de nossa estruturação social.

O tom ensaístico e literário do livro torna-o agradável à leitura. Gilberto Freyre, que em suas notas de rodapé parece ter lido o equivalente a cinco bibliotecas de Alexandria, nos mostra que é possível ser ao mesmo profundo e prazeroso, denso e leve. Ao borrar a fronteira entre a literatura e o texto acadêmico duro, anguloso, e ao mostrar também que é possível transgredir a fronteira entre o ascetismo científico que não se compromete e o texto-panfleto, Gilberto Freyre escreve um texto absolutamente libertador.

Um dos elementos nos quais essa liberdade pode ser percebida é na abordagem da relação entre os índios e os jesuítas. É razoavelmente comum na literatura acadêmica sobre a história do Brasil a existência de textos que valorizam a importância da catequização dos índios brasileiros pelos jesuítas. Esses autores, citados em abundância pelo autor ao longo do segundo capítulo de seu livro, apresentam a ação jesuítica sob um olhar muito positivo, ora por uma questão de simpatia apologética, ora porque, de certa forma, a ação jesuítica representou um processo grande de proteção aos índios no Brasil, em especial no que diz respeito à proteção desses índios quanto à escravização. Nesse aspecto, o ponto de vista extremamente crítico de Gilberto Freyre sobre os jesuítas, abordando-os sob um ponto de vista mais negativo, segue pela linha de que, por vezes, proteger também oprime. Em suas próprias palavras: “(...) Por onde se vê que o sistema jesuítico de catequese e civilização impondo uma nova moral de família aos indígenas sem antes lançar uma permanente base econômica, fez trabalho artificial, incapaz de sobreviver ao esquema de estufa das missões; e concorreu poderosamente para a degradação da raça que pretendeu salvar. Para o despovoamento do Brasil de sua gente autóctone.” Os argumentos apresentados por Gilberto Freyre reforçam a ideia de que recai, em parte, sobre os jesuítas, o peso do esvaziamento territorial dos sertões brasileiros aos agrupar os indígenas em ‘missões’, e também o fato de os mesmos terem permanecido à margem de uma maior integração com a sociedade brasileira, na ideia de que este excesso de proteção exercia uma função castradora de suas autodeterminações como indivíduos e como povos. É curioso como, certa vez, utilizei conceituação similar (esta da proteção que oprime) em um texto do meu bog pessoal, sem jamais ter lido Gilberto Freyre. É agradável encontrar estas similitudes de pensamento em um autor que admiramos.

Ainda sobre este mesmo capítulo, outros dois elementos me chamaram a atenção. Em primeiro lugar, a existência de homossexualidade entre os índios brasileiros, cujo exercício estava fortemente associada a ritos locais, em especial aos ritos de passagem. A prática homossexual indígena ocorria em locais exclusivos para os homens, em um local com certa distância das aldeias. Estes locais eram chamados de baitos. Creio ser daí, portanto, a origem da palavra ‘baitola’, que existe na língua portuguesa como forma depreciativa de se referir aos gays.

O segundo elemento interessante neste mesmo capítulo é a respeito da mandioca. Durante muitos e muitos anos, nos primeiros períodos da colonização, a mandioca foi a base da alimentação dos colonos. Não sou capaz de precisar o momento da história em que o ‘arroz e feijão’ foi alçado à categoria de alimento tipicamente brasileiro. Mas nos primeiros trezentos anos de colonização, eram a mandioca e seus derivados o que se comia em terras tupiniquins. Isto é particularmente interessante quando levamos em consideração que a presidenta Dilma Rousseff, em um discurso recente, foi achincalhada nas redes sociais após ter feito uma declaração em que que fazia uma saudação à mandioca. De minha opinião, achei magnifica esta saudação à mandioca. É a ela que devemos a sobrevivência dos primeiros colonos que chegaram ao Brasil. A mandioca foi o substrato físico e material que, em última instância, tornou possível o povoamento do território brasileiro nos primeiros anos de colonização. Nas palavras de Gilberto Freyre: “Foi completa a vitória do complexo indígena da mandioca sobre o trigo: tornou-se a base do regime alimentar do colonizador (é pena que sem se avantajar ao trigo em valor nutritivo e em digestibilidade, como supôs a ingenuidade de Gabriel Soares). Ainda hoje a mandioca é o alimento fundamental do brasileiro e a técnica do seu fabrico permanece, entre grande parte da população, quase que a mesma dos indígenas.

Ainda no mesmo capítulo, Gilberto Freyre faz uma afirmação categórica: “O açúcar matou o índio.” Esta frase, associada à questão da mandioca levantada no parágrafo anterior, e associada também à questão da fome que rondava os engenhos e os centros urbanos nos primeiros anos da colonização (uma vez que o modelo latifundiário preteria as culturas de subsistência em prol da monocultura) nos remete a uma terceira questão/hipótese, que não chegou a ser levantada por Gilberto Freyre de forma mais escrutinada: a questão das drogas.

Gilberto Freyre, em suas notas ao final do capítulo 4, menciona muito rapidamente a questão da maconha, consumida pelos negros nas senzalas, mas que ainda não tinha um papel relevante na sociedade brasileira: “Entre outras, a erva conhecida no Rio de Janeiro – segundo Manuel Querino – por pungo e por macumba na Bahia; e em Alagoas por maconha.Em Pernambuco é conhecida por maconha; e também, segundo temos ouvido entre seus aficionados por diamba, ou liamba. (...) Já fumamos a macumba ou diamba. Produz realmente visões e um como cansaço suave; a impressão de quem volta cansado de um baile, mas com a música ainda nos ouvidos.”.

Todos entendem, hoje, que a maconha é uma droga. Embora as opiniões possam divergir quanto à regulamentação e à proibição de pessoa para pessoa, de acordo com suas posições no espectro político, não há dúvidas quanto ao enquadramento da maconha na categoria de droga. Neste caso, droga ilícita. O conceito de droga ilícita é, em geral, colocado em oposição ao conceito de drogas lícitas: o álcool e o tabaco, por exemplo. Drogas, em uma definição muito superficial, podem ser entendidas como substâncias que promovem algum tipo de prazer nos seus usuários, em geral por alteração de estados de consciência (exceção feita para o tabaco, neste caso), e com um potencial de vício, que varia de pessoa para pessoa de acordo com suas condições genéticas e ambientais. Neste conceito de droga, é razoavelmente fácil perceber o álcool e o tabaco como drogas, ainda que lícitas.

Mas existem outros produtos agrícolas que não temos tanto tanta facilidade em reconhecer como drogas, mas que podem ser admitidos nesta mesma categoria. Apresento dois deles: o açúcar e o café.

Neste ponto, voltamos a Gilberto Freyre. A questão das drogas, colocada pelo autor de forma muito emaranhada em meio a outros conceitos, emerge como uma questão indispensável a um entendimento claro da sociedade brasileira.

As duas grandes monoculturas em que se apoiou o latifúndio no Brasil foram o açúcar e o café, ou seja, drogas. Não é uma coincidência em que justo nesta culturas agrícolas tenha aflorado o regime patriarcal de casa-grande & senzala.

É próprio das culturas de droga (neste caso, cultura no sentido de sociedade) a existência de hierarquias rígidas entre os seus membros, posturas territorialistas dos chefes, abordagem beligerante em relação a facções rivais, algum grau de controle entre a oferta e a demanda, e o uso extremado da violência reforçando estas hierarquias.

Neste sentido, o regime patriarcal na cultura brasileira ocorrida nos latifúndios de açúcar (de forma mais marcada, por causa da escravidão) e de café não é essencialmente diferente do regime de relações encontrado em uma boca de fumo ou em uma plantação de papoula (ópio) ou coca.

Este tipo de produção, que caracterizamos como produção de droga, está associado a um mercado muito instável. Ao mesmo tempo em que existe um mercado europeu cada vez mais ávido por açúcar (no caso brasileiro), trata-se de um bem, de uma certa maneira, dispensável. Poder-se-ia utilizar a palavra ‘supérfluo’ para descrever a relação de consumo dos europeus em relação ao açúcar e ao café, mas creio que ela não é adequada. A relação dos consumidores com estas drogas é mediada de forma muito intensa pelo desejo e pouco pela necessidade. No caso do açúcar e do café, especificamente (não se poderia dizer o mesmo da metanfetamina ou da cocaína, por exemplo), estamos falando de um tipo de consumo que se caracteriza por um aumento de demanda quando as condições econômicas são favoráveis (uma vez que todo mundo quer uma comida mais doce ou uma dose extra de concentração) e por uma queda acentuada e brusca em tempos de crise (lembro-me bem de uma aula de história no colégio Pedro II com a Prof. Eulália explicando o declínio do consumo de café brasileiro na Europa após a crise de 1929: “Quando todo mundo se viu sem dinheiro, quem é que iria parar pra tomar um cafezinho?”). Portanto, se por um lado, o aumento do consumo em condições normais da economia estimula a ganância por parte dos produtores (senhores de engenho) que se reflete no aumento de mão-de-obra (escravos) para aumentar a área ou a produtividade das terras cultivadas com monoculturas, por outro, a instabilidade advinda de uma possível crise exerce o papel de uma assombração em relação ao mercado, que contribui para que as relações de poder nesses meios sejam mais violentas. Resumidamente, pode-se dizer que o aumento contínuo da demanda e a instabilidade desta mesma demanda em virtude de crises econômicas são responsáveis, respectivamente, pela ganância e pela violência que aparecem nestas relações.

Ocorre que, embora o processo de colonização brasileira tenha uma série de características singulares em relação ao de outros povos latinoamericanos, conforme reiteradamente apontado por Gilberto Freyre em “Casa-Grande & Senzala”, neste aspecto, o que encontramos em relação aos nossos povos irmãos são mais semelhanças do que diferenças.

Toda a colonização latinomaericana é baseada na monocultura de drogas: açúcar, álcool (o melaço das Antilhas), café, tabaco. A exceção parece ser o algodão.

É interessante notar, se formos capazes de esticar ainda mais o conceito de drogas, que, em ultima instância, também o ouro da América espanhola e das Minas Gerais, também os temperos trazidos das índias, também a riqueza mineral do continente africano, como as terras raras e os diamantes, e também, em uma análise ainda mais permissiva, os próprios negros trazidos da África como escravos, todos eles são elementos que contribuem para um enriquecimento hedônico das metrópoles europeias, no sentido de que estas metrópoles importam, a partir de seus portos coloniais, elementos prazerosos, muito prazerosos muitas das vezes, mas jamais necessários, que servem ao deleite e ao regozijo dos povos colonizadores.

Os colonizadores não terceirizaram às suas colônias a produção de alimentos. Isto significa que, além da dominação pela força, também os colonizadores ampliaram seu domínio  sobre as colônias em virtude da ausência da necessidade dos produtos agrícolas que provinham de além-mar. Os produtos produzidos pelas colônias não eram necessários às metrópoles, (embora houvesse um desejo grande de se os consumir), o que reduzia a quase nada o poder de barganha das colônias. Eram drogas, apenas drogas.

E ainda as são. Muito se diz por aí que o Brasil é, ou de que será em breve, o ‘celeiro do mundo’. Não se iludam. Em que pesem as extraordinariamente diferentes condições apresentadas pelo mercado de hoje em relação ao de trezentos anos atrás, é importante observar que a estrutura latifundiária do agronegócio nos dias atuais no Brasil está centrada na cultura da soja e da cana-de-açúcar.

Se fomos capazes de, até aqui, entender o álcool e o açúcar como drogas, certamente não será difícil entender que a soja, que se vende a partir do Brasil para ser usada no formato de óleo, é apenas a droga da vez. A soja, como commodity, serve apenas para estimular e disseminar o hábito da fritura, prazeroso e dispensável, aos outros países.

Embora já não seja possível dizer que vivemos sob a égide de uma relação colônia-metrópole, o fato é que do açúcar ao café, do café à soja, e incluindo aí também as mulatas, o samba e o futebol, nos constituímos essencialmente como um país exportador de prazer, fornecedor de coisas que são, a um só tempo, prazerosas e prescindíveis.

Seria forçoso admitir a hipótese de Paulo Prado, de que somos um povo triste. Mas se conseguirmos provar, de algum modo, que entre nós impera a tristeza, poderemos então ter a certeza de que a nossa alegria vai indo embora do país pelos portos, em contêineres, para alegrar os povos do outro lado do oceano, como sempre fomos acostumados a fazer.

Todos os Senhores de Engenho Finíssimos Fumando Maconha

Difícil imaginar como comentar Casa Grande e Senzala (doravante CGS). Uma pesquisa imensa e cuidadosa gerou esta obra fantástica. Garrei paixão. Uma narrativa fluida, bela e sólida. Realista porque complexa, mostra reducionismos sem aderir totalmente a eles, traz contradições com as quais temos de conviver.

Dito isto, faço algumas críticas, menores, se considerarmos a grandeza e a absoluta incontornabilidade da obra. De forma geral, o livro abriu muito meu pensamento, no sentido de refletir sobre a minha posição na sociedade e sobre as relações humanas no país, consciência de classe e de raça. Não consegui achar ponto cego nesta obra, dentro do que ela se propôs.

O principal problema do livro é ele ser datado, e revelar o pensamento da época. Um pensamento com muitos traços higienistas. Também impregnado de algum determinismo biológico, mais presente nas fontes a que ele se refere, mas inegável nas próprias páginas. Mas PP também dá sinais de compartilhar este pensamento, e não garrei paixão dele. Fiquei me perguntando o porquê disso. Primeiro, porque, apesar de uma narrativa nem um pouco árida, GF não pretende sua obra como retrato impressionista, mas se fundamenta muito bem, cita várias fontes e mostra pesquisa exaustiva e delicada, mesmo se posicionando quando encontra fontes conflitantes. Também porque em CGS GF propõe as características que analisa de maneira bem mais complexa e nuançada, por mais que contenha uma tese, e não é tão reducionista como “um ensaio sobre a tristeza”, não coloca os elementos raciais como explicação para uma derrota do povo, como PP parece propor. E também porque não se põe a cavaleiro na situação, analisa profundamente e se inclui nisso.

Em vez de espinafrar seu povo e o colonizador, GF encontra o expediente e pioneirismo portugueses na reinvenção da colonização, rompendo com o modelo de feitorias, instalando uma cadeia produtiva, ainda que, aos nossos olhos de hoje, predatória. Predatória por ser monocultura, por ser escravagista, por ser latifundiária. Ouso dizer que a questão do negro avançou mais na nossa sociedade que a questão agrária e da distribuição de terras.

Tive a impressão que GF sorria na hora de escrever sobre a importância das amas pretas para a difusão da cultura e no carinho e contato com os jovens senhores. Refletindo sobre isso, pensei como a história é seletiva. Pouquíssimas pessoas deveriam ter amas para amamentar seus bebês, e, no entanto, este protótipo permanece praticamente intocado.

Em alguns momentos as descrições das raças e de seus encontros pareceram tocar de leve a tese de que não há racismo no Brasil. Apesar de ressaltar o tempo todo a importância da escravidão, e mais do que isso, da relação senhor-escravo na gênese de uma série de problemas brasileiros, GF sublinha um pacifismo na convivência entre as raças. Talvez isto fosse mais aceitável em 1933, mas hoje não passa.  O convívio entre as raças, entre as classes no Brasil só é pacífico na medida em que não haja mobilidade entre elas. E, mesmo esta paz, está recheada de cordialidade. Apenas recentemente, no momento em que o Brasil se põe, na contramão do mundo , em um ciclo de redução da desigualdade social e promoção de uma verdadeira mobilidade social vertical, dito de outra maneira, com a saída dos pretos da senzala, com outras classes sociais estando disponíveis para descendentes de escravos, ou ainda, com a chegada de negros à sociedade de consumo, trabalho formal e educação, ou, finalmente, com a ampliação do acesso à cidadania para negros, é que surge, como uma regurgitação raivosa, a reação violentamente racista dos senhores de engenho que moram dentro de cada um de nós. A regurgitação da indigestão dos ricos versus a fome dos pobres, que já não têm tanta fome. Inspirado em uma fala de Maria Rita Kehl na última FLIP esta regurgitação violenta em forma de intolerância seria o retorno do recalcado para tantas concessões e tantas tolerâncias com malfeitos, tantas acomodações e jeitinhos, sempre mantendo privilégios.

Nosso povo não escapou ainda da maldita chaga da escravidão. Não apenas por manter indivíduos em condições degradantes, extirpados de subjetividade – para citar apenas alguns dos pontos inaceitáveis da escravidão -, o regime escravocrata criou uma incurável legião de senhores de engenho. Quem não é escravo é senhor, quem é escravo quer ser senhor. No nosso mundo em que as relações de consumo norteiam praticamente todas as relações, a existência desta marca, deste trilho, deste caminho senhor-escravo funciona morbidamente bem.

Não iria tão longe quanto GF a ponto de dizer que neste modelo de relação senhor-escravo seria o responsável pelo quão alto algumas pessoas se dirigem a outras hoje em dia. Mas é impossível negar a presença perniciosa dessa relação. Perniciosa e ubíqua. Vejo muito o escravo aspirando a tornar-se senhor. Ou converter-se em senhor de acordo com o ambiente em que está. Estamos treinados a esta alternância de papeis. O senhor sempre despreza o escravo. O olhar do julgamento da sociedade que cultiva esse abismo vem daí. Quando todos são mais ou menos iguais, não há escravos nem senhores, todos podemos nos tratar melhor, somos próximos. Se o sucesso significa tornar-me senhor, ou seja, tornar todos os outros escravos, ou me rodear deles, a vida do outro perde importância. As diferenças remetem todas ao “ele é o escravo, logo não tem valor humano”. O outro não vale. Pode morrer, pode apodrecer na prisão, não é dos meus, isto não acontece com gente como eu.

Nessa linha ele fala ainda do fenômeno das antigas famílias proprietárias de terra de dar grande importância a sinais externos de riqueza, mesmo que o lar fosse empobrecido. Vemos que a sociedade de consumo e de valorização das aparências não é uma invenção recente. Quando duas pessoas se respeitam, não importa muito o que vestem ou como seguram o garfo. Se uma delas quer mostrar que é senhor (ou seja, mostrar que o outro é escravo), vai julgar o outro de todas as formas disponíveis. Pela roupa, pelo sotaque, pelo comportamento, pelo número de parceiros etc.

Se dentro de cada civilizado vive um selvagem, dentro de cada um de nós está um senhor de engenho que tem medo de uma revolta de escravos, da invasão de seu depósito por corsários ou índios não domesticados. Condomínios fechados, carros blindados, senhas, trancas redundantes, carregamos nossa Casa Grande onde quer que vamos. Alguém disposto a dar ordens e a ser atendido imediatamente, a pegar o que e quem quiser. 

Quem não acumula açúcar ou ouro deve se conformar com a posição de escravo e respeitar a ordem das coisas, sob pena de apanhar da polícia ou do vizinho. A vida do escravo não é valorizada, ele tampouco a valoriza, salvo os heróis. O pobre e preto, quando arrisca sua vida, não arrisca muito. Vai morrer pela mão da polícia ou do bandido, entidades entre as quais a diferença é uma formalidade. É a tristeza.


A estrutura social em que vivemos é, a um só tempo, produto e produtora de desigualdades.  Vivemos esta luta.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Das índias - Em Paulo Prado, Retrato do Brasil

vindos além mar, esses homens tão peludos parecem estar perdidos de si mesmos, não seguem senão suas vontades mais toscas que desviam de sua gloriosa missão. mas que paixões seriam maiores do que a nossa gostosura de indiada? que vale o ouro nesta terra de mangas tão maduras? não são estes os melhores homens para dominar esta terra, não parecem estar dispostos a abrir nosso involuto mistério ao qual nem suspeitamos. mas preferimo-os, antes estes perdidos que se acham às longas distâncias do que esses índios que mal caçam sem esquecer o caminho da volta. as moças aqui sequer aprendem a servir, só esse homem, francamente insidioso, que nos arrebata o amor de querê-los servir também com franca servidão. como são amáveis as plumas tecidas às almofadas que lhes servem de uniformes anterior as pinturas, são mais vivos os pássaros em que seu peito se eriçam as penas, que força o corpo franzino demonstra ao mero segurar de punhal. ainda que nossa devoção lhes pregue ocupação, parecem querer fugir. que levem os homens, esses brutos que se esgarçam de coceiras como cachorros pelados, matando-os se assim quiserem, que façam o que lhes servir de bom agrado. que aproveitem também o virgem de nossas moças, e lhes ensinem o muito de compaixão que nos tem ensinado. somos gratos a tudo, mas há homens de outra raça – de variada cor - que nos tratam mal, alguns até parecem  pertencer a indiada. como engraçam ao nosso martírio no breve exalar de fúria, são tão obstinados quanto a paixão daqueles que nos amam. são belos de tão feios, e de admirável força quanto a tudo. estes são os que tanto esperávamos.  feios mesmo só os nossos que conosco vivem,  e que muito estão aprendendo.


17/08/1539

Outra História



 Durante a leitura do livro “Retrato do Brasil” de Paulo Prado, me veio uma lembrança do tempo em que eu morava em Teresina. Provavelmente por conta de alguns trechos sobre os bandeirantes. Nessa memória, recordei o caminho que pegava para ir ao colégio que passava por um prédio de esquina que ficava numa das principais avenidas da cidade. O prédio era uma escola (inclusive, lugar onde minha avó tinha dado aula durante alguns anos). Lembro que na parede branca do muro da escola tinha o nome do colégio em letra azul e em caixa alta. Chamava-se Unidade Escolar Domingos Jorge Velho. Só bem mais tarde fui saber quem esse homem tinha sido e que, dentre outras coisas, havia comandado a destruição do Quilombo dos Palmares (um dos mais emblemáticos refúgios do período de escravidão). Paulo Prado, homem branco, milionário, vinha de uma influente família paulista de cafeicultores. No livro transparece claramente a sua arrogância, seu racismo, machismo, elitismo, preconceito. Seu desgosto por se saber parte de um país formado por negros e índios. Seu remorso por ter falhado o lusitano, “tinha faltado a Portugal a verdadeira compreensão histórica e econômica da sua missão metropolitana”. Uma faceta interessante do livro é a sua grande honestidade ao retratar claramente a forma como aqueles que estão no seu lugar de fala pensaram e, infelizmente, ainda pensam o Brasil. De certa forma, existe uma relação relevante entre essa escola e as ideias de Paulo Prado.
O livro mostra que antes da colonização do Brasil, Portugal se deteriorava. Miséria, fraqueza, imoralidade reinavam. A sociedade vivia em íntima mistura com os mouros (povos do norte da África que praticavam o islamismo) e negros. Uns alforriados, outros escravizados. A escravidão minava o organismo social em toda a parte onde existiu. O horror e degradação do cativeiro fez desaparecer o heroico português do século XV (com todas as suas virtudes). O homem que colonizou o Brasil não era mais do que uma corruptela do branco europeu lusitano heroico de outrora.
Paira sob Paulo Prado o espectro de Conde Gobineau (teórico do racismo). O principal na sua tese racista é a concepção de que a escravidão estragava a sociedade. Não porque o ato em si fosse abominável, mas pelo fato dela permitir o contato do negro com o homem branco. Paulo Prado escreve: “em represália aos horrores da escravidão (o negro), perturbou e envenenou a formação da nacionalidade, não tanto pela mescla de seu sangue como pelo relaxamento dos costumes e pela dissolução do caráter social, de conseqüências ainda incalculáveis”.  Embora admita que as raças sejam iguais em capacidade, reafirma a questão dos problemas que a mestiçagem traz e levanta a possibilidade dessa mistura contribuir para a fraqueza, doença, vício, preguiça. Ao que parece o grande mal é ter o homem negro se misturado ao branco. Enquanto cita cientistas americanos que dizem que nos Estados Unidos o problema da mestiçagem não tem solução, a não ser que os negros sejam esterilizados, no Brasil esse mal é irremediável.
No capítulo sobre a luxúria, Prado escreve que os primeiros homens branco que vieram ao Brasil não eram lá os mais santos. Eram exilados, náufragos, desertores, criminosos. Só vinham ao Brasil por vontade própria o aventureiro miserável resolvido a tudo, o desesperado. Chegando ao Brasil, se entregaram aos prazeres da luxúria. Mas a culpa da depravação do português deveu-se ao clima, a falta de mulheres brancas, a sensualidade dos trópicos, as índias, que segundo ele eram de submissão fácil, e que segundo relatos “Procurava e importunava os homens brancos nas redes em que dormiam” e posteriormente “a passividade infantil da negra africana, que veio facilitar e desenvolver a superexcitação erótica em que vivia o conquistador e povoador”. Disso tudo se desenrola todos os males da nossa sociedade até hoje.
Quanto a Cobiça, Paulo Prado destaca a insaciável ganância e loucura pelo enriquecimento rápido que dominava os homens da época. Por toda parte o aventureiro corria atrás da prata do ouro e das pedras preciosas, que durante quase dois séculos não foram senão ilusões e desenganos. Só nas últimas dezenas do século XVII se desvendaram ao mundo as minas riquíssimas das Gerais que forneceram riquezas fantásticas. Porém o século XVIII, apesar de tanta riqueza, foi o século do martírio do Brasil justamente por causa ouro. Guerra Civil. Fome (por conta do abandono da cultura e da criação). Para Portugal, o enriquecimento com as minas brasileiras significou desperdício e esbanjamento. Nem o Estado melhorou e nem aumentou a fortuna pública, tudo por conta da estúpida administração portuguesa nesse século XVIII. Tanto que quando D. João V morreu, foi preciso pedir dinheiro emprestado para que enterro fosse pago. Quiseram viver sem trabalhar.
Prado conclui que, o homem sem a religiosidade, sem a cultura intelectual ou artística somado aos fatores da cobiça, que absorvia toda a energia psíquica do colono aventureiro (por ser uma paixão eternamente insatisfeita) mais a luxuria e a mestiçagem tomou o brasileiro pela tristeza que se estende por todo país.  A tristeza que leva ao enfraquecimento, a fadiga, insensibilidade, abatimento físico e moral e, ainda, a preguiça.
Dito isso, cabe refletir como devemos levar em conta o retrato de um país sem considerar ou menosprezar seu principal elemento formador. Não que a fala de Paulo Prado seja completamente nula, mas como Alberto da Costa e Silva disse em seu livro “Um rio chamado atlântico” não se pode estudar a história do Brasil sem estudar a história da África. O Brasil se formou na escravidão. “Foi o processo mais longo e mais importante da nossa história, de onde compramos o grosso dos nossos antepassados. Do outro lado do oceano é que principiam outras histórias com as quais compomos a história do brasileiro. Não numa África mítica, mas em cada uma das nações que tão diversamente nela vivem e possuem passado. Só conhecendo como foram, ao longo dos séculos em que tiveram parte de sua gente transplantada para as Américas, é que poderemos contar coerentemente por que e como no Brasil assumiram novas identidades e acabaram por se misturar entre si, de maneira quase impossível de desenredar”.
Em 1870 eram imensos os espaços vazios no conhecimento que a Europa tinha da África. O Europeu pensava a África como um continente vazio que pedia ocupação. Achavam-se detentores de uma missão civilizadora. Tinha a superstição da África como um lugar primitivo. Nada mais do que racismo e arrogância cultural. Tudo que não é padrão europeu é selvagem ou bárbaro. Os britânicos sob o pretexto de acabar com a ignomínia do comércio de negros, iniciou a transformação da África em colônia Europeia. Humilharam e depuseram chefes. Destruíram o monopólio comercial em que muitos fundavam o seu poder.
Sir Hugh Trevor-Hoper afirmou em 1963 não haver uma história da África, mas tão somente a história dos europeus no continente, porque o resto era escuridão, e a escuridão não é matéria de história. A mudança dessa visão começa a acontecer no século XX com a figura do administrador. O administrador colonial tinha, entre suas tarefas, a de produzir relatórios sobre as gentes de quem cobrava impostos. Muito desses funcionários imperiais deram-se a tarefa com zelo e alguns mais que zelo, paixão. Alguns desses funcionários já chegaram à África com curiosidade e erudição.  Para exercer com eficiência o ofício de agente político, tinha de aprender o idioma, conhecer crenças, familiarizar-se com estruturas sociais e os costumes dos povos que administravam. O que era exigido desses funcionários acabou por transformar alguns poucos em antropólogos, linguistas, geógrafos e historiadores. Por sua vez, o impacto da presença europeia e a resistência à ocupação colonial influenciou o interesse pelo próprio passado. Assim, embora sendo antiga a ampla bibliografia histórica sobre a África, a história da África é uma nova disciplina. Só há algumas décadas se incorporou ao currículo das universidades, tendo a historiografia africana como período áureo a partir da segunda Guerra Mundial.
                O ponto de vista em si de Paulo Prado é inócuo, qualquer indivíduo tem o direito de escrever sobre o que quiser. O verdadeiro problema é o lugar dessa fala. Paulo Prado representa uma poderosa estrutura de poder e a sua fala tem grande impacto. Renegar, diminuir, culpar e desumanizar o negro, o índio e o mestiço vai além do cruel. É criminoso. Da gênese desse tipo de pensamento surgem tragédias que tem o racismo, desigualdade e a segregação como pano de fundo. Desde a criminalização do porte de armas brancas e redução da maioridade penal aos vários casos como Amarildo, Cláudia, DG, Eduardo, mortos arbitrariamente pela polícia (porque eram pobres, negros ou favelados).
Na minha última visita a Teresina, ainda esse ano. Descobri que o colégio público Unidade Escolar Domingo Jorge Velho não existe mais. Decorrente de um projeto de lei, em 2007, a escola se transformou no Memorial Zumbi dos Palmares e hoje é um espaço de difusão e divulgação da cultura negra. O empoderamento proporcionado pela memória e a identidade provocam mudanças. Longe do ideal, mas ideias, posturas e pensamento conservadores de outros tempos já não se reproduzem tão facilmente hoje em dia. Não tenho resposta sobre qual será o futuro disso, mas me anima pensar que obras como a de Paulo Prado terão cada vez mais rejeição.
Reproduzo abaixo o último parágrafo do capítulo intitulado “Ser africano no Brasil dos séculos XVIII e XIX” do livro “Um rio chamado atlântico” de Alberto da Costa e Silva: “O Africano no Brasil, o livre, o liberto, mas, sobretudo o escravo, foi um elemento altamente civilizador, como já pensava um dos grandes políticos brasileiro do século XIX, Bernardo Pereira de Vasconcelos. Bernardo Pereira de Vasconcelos disse alto no Senado, em 1843, esta frase em tudo verdadeira:“ A África civiliza a América.” Eu a tenho na memória, ao voltar-me para o africano escravizado que vivia em terras brasileiras nos séculos XVIII ou XIX e ao perguntar-lhe como é que gostaria de ser lembrado por nós, brasileiros de hoje. Creio que gostaria que dele não esquecêssemos a criatividade com que se deu a uma terra que logo fez sua, ocupou com seu trabalho e encharcou de beleza. Seríamos não só injustos e ingratos, mas também não merecedores de seu exílio, de sua humilhação e de seu sofrimento, se olvidássemos o papel enorme e decisivo do escravo na construção do Brasil. Se alguém merece ser herói nacional deste país, este alguém é ele.”

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Paulo Prado escreve sobre a formação do Brasil sem romantismo, atiçando o leitor ao citar de forma direta e indireta os pecados capitais.

Ao dar início a Era dos Descobrimentos o Brasil é (sem querer) descoberto, mas será por meio da luxúria (prazeres carnais) e da cobiça (ambição de riquezas) que o Brasil será formado, segundo o autor.

A corrida do ouro foi um fato. Que culpa o colonizador teve sobre isso? Paulo Prado fala com “sangue nos olhos” dos portugueses e a forma da colonização “Por esse povo já gafado do germe de decadência começou a ser colonizado o Brasil” (pag. 95).

Acredito, contudo, que o mesmo erra quando não faz contar no texto que as mulheres (seja índia, negra africana ou até mesmo a órfã branca portuguesa) sofrem do mesmo problema: a exploração pelo homem. A fala simplista da sensualidade da mulher, e não da perversão do homem, faz com que o autor foque a formação brasileira em um tema bastante controverso.

O autor cruza a questão sexual com tristeza. Mas se o Brasil, dentro dos parâmetros dele, tivesse se desenvolvido como os americanos? Ligaria a questão sexual ao orgasmo e a alegria? Além do mais, a característica da sensualidade não é privilégio único do Brasil e sim dos latinos. A relação da raça triste que não tem sua própria identidade, não faz sentido depois da Coleção História do Brasil Nação e do texto lido no grupo do Alberto da Costa e Silva.

Mistura o conceito de romantismo, e do que ele significou para o mundo, com a carta de Joaquim da Maia e nossos primeiros sinais de independência. Mas pode a independência não ser romântica? O autor problematiza, quando sugere que o romantismo cega a verdadeira realidade social. E cita, mais uma vez, que a mistura da raça é o que nos faz perder a força.

Para encerrar, Paulo Prado escreve (podemos sentir a ira dele) sobre o que ainda (naquele tempo e até hoje), ameaça o desenvolvimento do país e, como se fossemos um povo ignorante e preguiçoso, não levantaríamos bandeira alguma sobre o que pairava no mundo daquele tempo (ou será que não foi levantada a bandeira que ele queria que o Brasil levantasse?).

O autor também demostra em outra parte do texto um ar ignorante (e de época) sobre o não conflito de raças no Brasil (pag. 130) e de possíveis doenças oriundas da mistura das raças (pag. 132).
De forma geral, o texto é bem provocativo e, mesmo que possamos discordar facilmente de vários pontos indicados pelo autor, não podemos deixar de concordar que as questões por ele colocadas, fazem algum sentido na nossa formação.


Por fim, uma raça triste sim (séculos de exploração), sensual sim (séculos de exploração), romântica sim (séculos de exploração), contudo, por tudo isso, se forma um povo colorido, festeiro e sonhador, que faz com que ainda estejamos formando o que somos e o que desejamos ser, quase 100 anos depois de Paulo Prado.


Retrato Impressionista

De forma geral, pode-se dizer que é um livro com muitos adjetivos, e a quase totalidade deles pouco elogiosos no que se refere ao nosso país, e principalmente ao povo. Tentou passar uma mensagem de otimismo no fim, com o post scriptum, mas falhou. Não desenvolve ali o que seriam a revolução ou a guerra que propõe como solução. O que mais me incomodou foi o caráter biográfico e determinista dos juízos produzidos por PP. O país está fadado ao fracasso porque seu povo foi constituído desta maneira.  
PP apresenta uma tese sobre “por que esse país não vai pra frente.” A diferença é que uma  pessoa sem seu berço diria “é porque ninguém tem deus no coração”, ou “porque não matou esses safados todos quando foram presos pela primeira vez”, ou “porque o voto é obrigatório”, ou “por causa dos comunistas”, "é muita corrupção". Como PP é um endinheirado rebento de família quatrocentona, a tese veio com citações em francês e latim, mas o subtexto é parecido. Ele padece de um mesmo fatalismo apontado por SBH. O povo é assim, então o país é uma bosta. 

O ensaio reforça uma noção de degenerescência, não muito distante do que Gobineau - que acho que já fora citado por um antropólogo populista ou pelo SBH  - colocava em relação ao nosso povo. A questão da dissolução moral oriunda da miscigenação está presente em cada tema abordado. 
Outro ponto que achei interessante no livro como um todo foi a falta de preocupação com a precisão das datas, o que dá maior fluidez à narrativa. Isso, entretanto, torna certas análises excessivamente gerais, com prejuízo das nuances de cada período. 

PP não se preocupa em dar roupagem científica a seu Retrato. Ele traz o ponto de vista de uma classe que ainda hoje pensa daquela maneira, com poucas variações. Muito racista, higienista, eurocêntrico. Algumas vezes comete erros em suas citações, referências e name dropping (expressão em inglês usada para designar, pejorativamente, quem recita nomes célebres para se promover) que, de tão numerosas, parecem mais servir a valorizar a pesquisa do autor do que enriquecer seu conteúdo. 
Isto posto, vamos aos capítulos. 


Luxúria 
Gostei muito. PP fez uma bela pesquisa, e cita inúmeras fontes que parecem ser bem interessantes. Do jeito que ele põe a coisa, parece que na Europa nada daquilo acontecia. PP analisa com olhos vitorianos o Brasil em seu nascimento. PP teve um filho ilegítimo. Não comprou no Boticário o perfume que deu de presente a sua amante.  

Ele se refere aos primeiros habitantes de uma forma animalesca. Tive por inúmeras vezes ao longo do livro, talvez até menos um pouco em Luxúria do que nos capítulos seguintes, a impressão de se tratava de um burguês tupiniquim que se sente superior a todos os outros por ser bem-nascido, se colocando à  parte de tudo o que descreve como sendo a desgraça nacional. Talvez o livro tenha feito tanto sucesso naquela época por isso, por dar vazão ao complexo de vira-lata que provavelmente era o que pensavam as cabeças leitoras daquele então. As outras cabeças não liam. Agora me deu curiosidade de saber a opinião de tenentistas sobre este Retrato. 

Assim como no Raízes do Brasil, aparece a característica voltada pra fora da construção do país. Eu vim aqui para pegar o meu e me mandar; o “transoceanismo”. Vejo isso ainda muito presente na sociedade brasileira atual, onde o compromisso coletivo é muito incipiente, na melhor das hipóteses. No post-scriptum PP diz, a meu ver acertadamente, que "não conseguimos preparar a argamassa que liga os grandes povos idealistas. Explosões esporádicas de reação e entusiasmo apenas servem para acentuar a apatia quotidiana." Tenho a impressão que isto mudou muito ao longo das décadas, mas penso também que o engajamento político com compromisso coletivo sempre será insuficiente. Vivemos uma crise de da democracia representativa no Brasil e no mundo que talvez seja "o novo normal".   


Cobiça 
Considero este o melhor capítulo. A descrição das bandeiras e dos bandeirantes é interessantíssima em seu detalhamento e vivacidade. A essa altura já não me importava tanto com os juízos de valor e passei a me ater mais às descrições que às análises propriamente ditas. 

É neste capítulo que ele destaca o papel rebelde dos jesuítas, representando a resistência contra a selvageria dos colonizadores contra os selvagens. Até agora, em nossas leituras, não tinha percebido esta característica ou função da presença daqueles religiosos. 

Um marcado desprezo pelo Estado também permeia as páginas desse Retrato - desgastado e amarelado, porém não superado. Exceto talvez alguns elogios ao Marquês de Pombal, em momento algum a presença do Estado foi retratada como potência organizadora. Isto talvez se deva à ênfase dada no livro ao período colonial; calculo que a expansão do Estado brasileiro tenha tido seus primórdios com a vinda dos Braganças e somente se consolidado de fato com Getúlio, posteriormente, portanto, à publicação do livro. Paralelamente a esse desprezo pelo oficial, pintado como ineficaz e contraproducente, está o heroísmo da iniciativa individual de certos cidadãos movidos pela cobiça do ouro de do enriquecimento imediato proporcionado pela posse concreta do metal. 

Considerando a data de publicação do livro, e quão rico e viajado era o autor, é possível que ele estivesse, como muitos à época, encantado com a pontualidade dos trens italianos após a ascensão de Mussolini. Ou com a proposta de ortopedia moral de Salazar em Portugal. 

A narrativa, livre da pretensão científica, dá boa dimensão humana na apresentação de situações, como na descrição da corrida do ouro, em que “ viviam num contínuo sonho de esperança, vítimas de uma espécie de loucura, forma aguda e crônica de uma doença que é o jogo. Homens de reputada prudência, mesmo parcimoniosos, rapidamente transformavam a avareza em prodigalidade. ” 


Tristeza 
Triste mesmo é este livro. Quanto pessimismo! Tudo é descrito pelo lado ruim. Nenhuma potencialidade é debatida. Pouco se comenta de qualquer progresso que possa ter havido ao longo do período coberto. Pelo que entendi, a tristeza vem de uma retenção nos instintos crus da luxúria e da cobiça, em detrimento de "sentimentos afetivos de ordem superior." PP, aqui, não revela qual foi a fonte dessa hierarquia de sentimentos afetivos nem seus fundamentos. 

Neste capítulo aparece uma das mais valiosas frases do livro, a meu ver; referindo-se à independência, anunciada no início do século XIX, "ainda não se formara a nação; apenas a sociedade, como simples aglomeração de moléculas humanas. Começava, no entanto, a se afirmar a consciência geográfica, que fixava e delimitava o território." 

Ali também ele faz considerações sobre raça e cor bem interessantes, algo que não havia sido comentado em qualquer outro texto que lemos até agora, que é a gradualidade do racismo; o mulato desprezava o mamaluco. Os diversos nomes que usamos para designar as gradações de cor de pele são facilmente extrapoláveis em estratos da sociedade, onde quem é menos preto oprime quem é mais. Segundo Henry Koster (Henrique da Costa), citado no Retrato, o mulato deixa de sê-lo quando passa a ser capitão-mor. 

Em alguns pontos ele põe em evidência a escravidão como grande mácula na formação de nosso povo. Nada diz sobre ter este regime lançado as bases de um fosso de desigualdade que compromete a transformação de brasileiros em cidadãos, mas responsabiliza o negro africano pelo relaxamento de costumes e dissolução do caráter social. 


Romantismo

Este me fez pensar nas peças jurídicas que já li, umas três ou quatro, e que sem exceção são escritas como um romance do século XIX. Como se cada advogado acreditasse que escrevendo como Victor Hugo fica mais fácil convencer um juiz do pleito de seu cliente. Ou então como se cada juiz achasse que um dia suas sentenças serão publicadas e expostas como peças de extrema qualidade literária. É muito difícil entender uma sentença de juiz. 

O curioso desse capítulo é que ele critica o pessimismo do mal-do-século. Não deixa de ser engraçado, o pessimista criticando o mal-do-século. Metalinguagem ou negação? 


Finalizando...

post-scriptum também merece comentários. De volta à questão racial, ele, assim como muitos hoje, incluindo o todo-poderoso do jornalismo da Globo, AlKamel, acredita que reina no Brasil a paz racial. A aproximação entre as raças teria se dado pela luxúria e pelo desleixo social. "Nascemos juntos e juntos iremos até o fim de nossos destinos", diz PP. Essa "completa intimidade" só é possível pela estrita hierarquização da sociedade, a paz é condicionada a que cada um se mantenha no seu lugar. Este tema permanece no ponto cego de PP. Imperdoável. Este "quadro impressionista" - que pena que sinto neste momento de Monet, Sisley e tantos outros - tem uma mancha escura no meio.  O Retrato parece impressionista, mas apenas na medida em que a miopia prejudica a distinção precisa dos tratos e borra a percepção.