domingo, 11 de setembro de 2016

Coleirinho



Encerrei a leitura de Um Defeito de Cor, romance semi-ficcional da Ana Maria Gonçalves, e fiquei sem saber o que escrever sobre o livro. É uma trajetória densa, em que a vida da protagnista cobre quase todo o século XIX (não há um relato claro do seu nascimento, pois a narrativa começa com a personagem tendo 6-7 anos, sem registros de datas), passando por eventos históricos importantes, como a Revolta dos Malês (1835), a Sabinada (1837-38), a Independência do Brasil (1822), a Proclamação da República (1889) e a Abolição da Escravatura (1888).  


Uma coisa que me chamou a atenção foi o fato de que os eventos e personagens históricos ganham pouca relevância neste livro, por vezes servindo como mero pano de fundo para acontecimentos pessoais da narradora. O centro da narrativa está nas ditas “pessoas comuns”, que, sem serem mencionadas pelos livros de História, tiveram profunda relevância para a história a que somos apresentados por Ana Maria Gonçalves.


Pesquisando um pouco sobre o assunto, descobri que existe uma controvérsia sobre o romance histórico, formato aparentemente utilizado pela autora. Alguns aspectos do texto que reforçam esta ideia (colocam mais tonalidades na já infinita gradação que separa a ficção da realidade) são apontados por Michele Gemin em sua monografia defendida pela Universidade Federal do Paraná sobre “Um Defeito de Cor”: (i)  toda a narrativa está localizada no tempo passado, e a especificidade histórica é condicionante para o modo de ser e agir dos personagens, que tem suas ações definidas pela época em que vivem; (ii) A protagonista não é uma heroína daquelas que estão nas epopéias, não é um grande personagem da história do Brasil e não realizou grandes feitos do ponto de vista histórico; (iii) A narrativa traz à tona os seres humanos que viveram esta experiência e focaliza detalhes do cotidiano que pareceriam insignificantes vistos com outros olhos; (iv) A autora pode recriar e reinventar personagens na busca de melhor representar suas ideias, sem necessidade de se criar ou identificar o patriotismo ou a nacionalidade como nos romances históricos do século XIX, sem compromisso com a História oficial (Gemin, 2015, página 16).


Curioso é que esta controvérsia entre ficção e realidade não parece incomodar a autora. Em recente entrevista à Editora Record, responsável pela publicação do livro, Ana Maria Gonçalves comenta que:
 
“Eu ficaria imensamente feliz se isso do que é verdade ou ficção pudesse ser respondido pelo leitor, que ele se interessasse em pesquisar o período histórico a que me ative. Tenho certeza de que deixei muitos fatos interessantes de fora, pois o livro tinha um propósito a ser seguido. Aliás, de todo o material de pesquisa que reuni, não cheguei a usar nem a metade, e muitos outros livros poderiam ser escritos com o que "sobrou". Diante de tanto material, confesso que até eu me confundo, tomando por realidade o que posso ter inventado a partir de alguns fatos, de algumas circunstâncias e mesmo de algumas pistas e leituras de entrelinhas. Grande parte dos personagens realmente existiu e os fatos históricos podem ser facilmente comprovados, mas a maneira como tais personagens atuaram ou deixaram de atuar sobre eles, pode ter sido apenas imaginado. Foi isso que tentei fazer, tendo em mente que sou romancista, e é como um romance  deve ser lido, deixando o rigor histórico para quem de direito.”

Talvez esta seja a melhor maneira de se ler a História: degustá-la, como se fosse um dos muitos quitutes preparados pela protagonista, e deixar para quem tenha mais autoridade (e paciência) que se preocupe com a (sempre flutuante) fronteira entre ficção e realidade...


O que mais dizer sobre esta bela narrativa?


Bom, ao longo da leitura, percebi que já havia ouvido ecos da história narrada por Kehinde (ou Luísa Andrade da Silva, ou Sinhá Luísa ou Dona Luísa, algumas das muitas alcunhas recebidas pela protagonista) em outros lugares. Será que foram em outros romances, ou em livros de História mesmo? Fiquei com a impressão de que o eco não era literário, mas sim em outras formas de Arte… Me ajudem então, a dizer se, à medida que avançamos pela bela história trazida por Gonçalves, não encontramos ecos dessa narrativa em outras formas de Arte da nossa vida contemporânea. (transcritas abaixo para cada trecho do livro - e para quem não leu, fica o *spoiller alert* dado aqui):  


1. Começamos o livro sendo apresentadas a Kehinde de 6-7 anos de idade. A despeito da tragédia que acontece com sua mãe e seu irmão, ela consegue se instalar na cidade de Savalu. Por obra do destino, a protagonista é levada por um traficante de escravos; porém, não realiza a travessia para o Brasil sozinha, sendo acompanhada da avó e da irmã gêmea Taiwo - que, pelas condições degradantes da viagem, acabam não sobrevivendo. Vocês já ouviram sobre isso em algum lugar?


Boa Esperança - Emicida - https://www.youtube.com/watch?v=AauVal4ODbE


O tempero do mar foi lágrima de preto
Papo reto, como esqueletos, de outro dialeto
Só desafeto, vida de inseto, imundo
Indenização? Fama de vagabundo
Nação sem teto, Angola, keto, congo, soweto
A cor de Eto'o, maioria nos gueto
Monstro sequestro, capta três, rapta
Violência se adapta, um dia ela volta pu cêis
Tipo campos de concentração, prantos em vão
Quis vida digna, estigma, indignação
O trabalho liberta, ou não
Com essa frase quase que os nazi, varre os judeu? extinção
Depressão no convés


2. Ao chegar no Brasil, Kehinde foge do batismo (onde recebe o nome de Luísa) e acaba indo trabalhar em uma fazenda na ilha de itaparica. Escrava “doméstica”, faz muitos amigos (Tico e Hilário, Esméria, Sebastião e a “sinhazinha” Carolina), aprende alguns serviços domésticos (e também a ler e a escrever com Fatumbi, aproveitando às escondidas as aulas da sinházinha) e desperta inveja da sinhá - razão pela qual é enviada para trabalhar na fundição, ficando com os escravos da senzala por um tempo. É um trabalho duro e perigoso, mas é o momento em que a protagonista faz contato mais intenso com a cultura dos negros, conhecendo personagens importantes para o seu futuro, como a Nega Florinda e Agontimé, e testemunhando revoltas e as punições aplicadas aos revoltosos. Vocês já ouviram sobre isso em algum lugar?


África Brasil - Jorge Ben Jor - https://www.youtube.com/watch?v=cf6ZyR_BUJ0
“Aqui onde estão os homens
Dum lado cana de açúcar
Do outro lado o cafezal
Ao centro senhores sentados
Vendo a colheita do algodão tão branco
Sendo colhidos por mãos negras
(..)
Eu quero ver
Quando Zumbi chegar
O que vai acontecer
Zumbi é senhor das guerras
È senhor das demandas
Quando Zumbi chega e Zumbi
É quem manda”


3. Ao chegar aos 14 anos, Kehinde chama a atenção o bastante para voltar a trabalhar na Casa Grande. Apaixona-se pelo preto Lourenço - o que talvez tenha sido a perdição para ambos - e sofre os maus tratos do sinhô, que se julga dono da virgindade de todas as escravas que possui. Após uma reviravolta do destino, toda a família se transfere para a capital, São Salvador. Na chegada à capital, Kehinde tem seu primeiro filho, Banjokô, que é adotado pela sinhá como “madrinha” - relação que vai gerar dissabores para ela no futuro. Devidos aos ciúmes da “madrinha”, acaba indo trabalhar por um tempo com uma família de ingleses - onde aprende a fazer cookies e a falar inglês, conhecimentos que a ajudarão muito no futuro. Ao retornar par a casa da sinhá, torna-se “escrava de ganho”, indo trabalhar nas ruas para ganhar o “aluguel” semanal que tinha de pagar a sinhá e decidida a lucrar o bastante para comprar a sua alforria e a do seu filho. Encanta-se com a cidade de São Salvador, faz muitos amigos, como Claudina, Padre Heinz e os muçurumins (muçulmanos negros) da loja onde vai morar, e conquista uma grande e variada clientela, com os sabores que consegue colocar nos quitutes à venda no seu tabuleiro. Vocês já ouviram sobre isso em algum lugar?


Você já foi â Bahia? - Dorival Caymmi - https://www.youtube.com/watch?v=WG8T-ppqY3g


“Você já foi à Bahia, nêga?
Não?
Então vá!
Quem vai ao "Bonfim", minha nêga,
Nunca mais quer voltar.
Muita sorte teve,
Muita sorte tem,
Muita sorte terá
Você já foi à Bahia, nêga?
Não?
Então vá!
Lá tem vatapá
Então vá!
Lá tem caruru,
Então vá!
Lá tem munguzá,
Então vá!
Se "quiser sambar"
Então vá!”      


4. Em uma das muitas reviravoltas do destino, a sinhá decide se mudar para São Sebastião do Rio de Janeiro e Kehinde vê a chance de comprar a sua liberdade e a do seu filho. Porém, a sinhá dificulta o jogo e coloca um preço de venda proibitivo na carta de alforria de ambos. Junto com o seu amado à época, Francisco, Kehinde elabora um plano muito arriscado para conseguir a sua liberdade e a do seu filho - o que acaba dando certo. Liberta, obtendo o apoio dos muitos amigos que fez à época (e ajudando a comprar a liberdade de outros amigos como a Esméria, Tico e Hilário e Sebastião), Kehinde consegue aproveitar a vida em São Salvador, fazendo muitos amigos, participando das revoltas e acontecimentos políticos mais importantes e despertando alguns amores. Um destes amores, Alberto, talvez seu primeiro amor de verdade, será o pai de seu segundo filho, Omotunde Adeleke Danbiran, mas é fraco de caráter e será responsável por muitas decepções. Vocês já ouviram sobre isso em algum lugar?


Canto de Ossanha - Vinicius de Moraes - Elis Regina - https://www.youtube.com/watch?v=NtbEGvO6010


“O homem que diz dou
Não dá!
Porque quem dá mesmo
Não diz!
O homem que diz vou
Não vai!
Porque quando foi
Já não quis!
O homem que diz sou
Não é!
Porque quem é mesmo é
Não sou!
O homem que diz tou
Não tá
Porque ninguém tá
Quando quer
Coitado do homem que cai
No canto de Ossanha
Traidor!”


5. Ao se apaixonar, Kehinde vê sua vida sofrer uma nova reviravolta: ela deixa a loja onde moravam seus amigos Adeola, Claudina e os muçurumins, e se muda para um sítio grande, no subúrbio da cidade, para onde leva alguns dos seus antigos amigos e inicia a criação dos seus filhos. É neste período de paz e tranquilidade em que ela começa a construir uma padaria: a Saudades de Lisboa, muito bem-sucedida por um tempo. São muitas as reviravoltas de uma só vez, mas a vida de Kehinde é assim: um período de calmaria seguido de muitas mudanças que acontecem de uma vez. Vocês já ouviram sobre isso em algum lugar?


Roda Viva - Chico Buarque e MPB4 - https://www.youtube.com/watch?v=IpAR9DlQV6o


“Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu
A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega o destino pra lá


Roda mundo, roda-gigante
Rodamoinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração”
6. A fase de calmaria começa a se encerrar quando Kehinde toma parte em algumas das muitas revoltas dos pretos que ocorreram na São Salvador daquela época. Uma delas, frustrada pela delação de uma negra enciúmada, poderia ter mudados os rumos da História se tivesse dado certo. Mas coube ao destino que as revoltas não fossem bem-sucedidas, e que nossa protagonista se saísse delas razoavelmente incólume, mesmo tendo sido presa, durante a Cemiterada, por uma razão injusta. Os guardas que combatiam a turba revoltosa, assim como as punições aplicadas aos participantes capturados, eram mulatos, crioulos e, às vezes, escravos libertos. Negros açoitando negros que lutavam pela liberdade de todos os negros. Vocês já ouviram sobre isso em algum lugar?   


Haiti - Caetano Veloso e Gilberto Gil - https://www.youtube.com/watch?v=MfAxBoxdlb0


“Quando você for convidado pra subir no adro
Da fundação casa de Jorge Amado
Pra ver do alto a fila de soldados, quase todos pretos
Dando porrada na nuca de malandros pretos
De ladrões mulatos e outros quase brancos
Tratados como pretos
Só pra mostrar aos outros quase pretos
(E são quase todos pretos)
Como é que pretos, pobres e mulatos
E quase brancos quase pretos de tão pobres são tratados
E não importa se os olhos do mundo inteiro
Possam estar por um momento voltados para o largo
Onde os escravos eram castigados”


7. Nesse período também ocorre a grande decepção com Alberto, que se casa com a Ressequida para se proteger da deportação de portugueses. Em compensação, acontece o flerte com Dr José Manoel, o médico que a ajuda nas fugas e com o refúgio em Itaparica. Durante o refúgio, Kehinde aprende muito sobre a cultura de sua terra e dos seus ancestrais através da Mãezinha e do Zé Manco. Também é nessa época que recebe a missão de levar um recado muto especial para para Nega Florinda e Agontimé, que vivem em São Luiz do Maranhão. Ao chegar em São Luis, Kehinde se instala na Casa das Minas, onde aprende mais ainda sobre voduns e vodunsis, e conhece mais sobre a vida e a cultura dos negros nesta bela cidade do Maranhão. Vocês já ouviram sobre isso em algum lugar?  


Ilha Bela - Tribo de Jah - https://www.youtube.com/watch?v=KrI-JOVBq8Y


“Que ilha bela, que linda tela, conheci
Todo molejo, todo chamego, coisa de negro que mora ali
Se é salsa ou rumba balança bumba-meu-boi
Deus te conserve regado a reggae oioioioi
Que a gente segue, tocado a reggae oioioioi


Que ilha bela, que linda tela, conheci
Todo molejo, todo chamego, coisa de negro que mora ali
Se é salsa ou rumba balança bumba-meu-boi
Deus te conserve regado a reggae oioioioi
Que a gente segue, tocado a reggae oioioioi


Quero juçara, que é fruta rara, lambuza a cara e lembra você
E a catuaba, pela calçada, na madrugada até o amanhecer
Na lua cheia, ponta da areia, minha sereia dança feliz
E brilham sobrados, brilham os telhados da minha linda São Luís”


8. Ao retornar para a Bahia, a protagonista decide continuar sua formação religiosa em Cachoeira, cidade que fica no interior da Bahia. A preocupação com a fé e a incrível capacidade de absorver e respeitar diversas culturas religiosas é uma dos aspectos mais interessantes da personalidade de Kehinde. Seu sincretismo religioso é tão grande quanto sua curiosidade, sempre presente nas perguntas sobre política, fatos históricos, cultura, culinária e dança, direcionadas a todos aqueles que a rodeiam. Todas essas informações formam um caldo de cultura que não apenas torna a narrativa mais interessante, como também refletem um pouquinho da diversidade que forma o povo brasileiro. Vocês já ouviram sobre isso em algum lugar?


Lourinha Bombril - Paralamas do Sucesso/Bangalafumenga - https://www.youtube.com/watch?v=Gha5w5gpV9g


“Essa crioula tem o olho azul
Essa lourinha tem cabelo bombril
Aquela índia tem sotaque do Sul
Essa mulata é da cor do Brasil


A cozinheira tá falando alemão
A princesinha tá falando no pé
A italiana cozinhando o feijão
A americana se encantou com Pelé


Häagen-dazs de mangaba
Chateau canela-preta
Cachaça made in Carmo dando a volta no planeta
Caboclo presidente
Trazendo a solução
Livro pra comida, prato pra educação”


9. Mas é em Cachoeira que Kehinde recebe a notícia que dará início à sua longa peregrinação. Após o desespero inicial, a protagonista segue sua intuição e inicia sua jornada indo para São Sebastião do Rio de Janeiro. Lá mora em um cortiço para negros, onde faz novos amigos: dona Balbiana, Piripiri, Mongo, Juana. É lá também onde se encanta com a vida na capital do Império, com suas lojas sofiticadas na Rua Direita e na Rua do Ouvidor; com os saraus e óperas italianas; com as discussões (eternas) sobre política; com a efervescência literária; e com as rodas de capoeira. Também é no Rio de Janeiro que surge um novo amor, que a conquista mostrando suas habilidades de capoeira. Por um período, Kehinde foi feliz - mesmo em sua procura infrutífera. Vocês já ouviram sobre isso em algum lugar?


Preciso me Encontrar - Cartola - https://www.youtube.com/watch?v=5jE2GWa9Sd8
“Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar
Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar


Quero assistir ao sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar
Eu quero nascer
Quero viver”


10. Vem de São Salvador a pista que a leva para São Paulo. Outra vez Kehinde passa por uma dura despedida ao deixar seus amigos e seu amor para trás. A viagem para a vila de São Paulo, um pequeno vilarejo à época, é muito dura, e se mostra como uma jornada ainda mais cansativa ao perceber, após muitas idas e vindas, que ela chegou tarde demais e perdeu o rastro de quem ela procurava. Nossa heroína só encontra frustrações em solo paulista. Vocês já ouviram sobre isso em algum lugar?


Não Existe Amor em SP - Crioulo - https://www.youtube.com/watch?v=f35HluEYpDs


“Não existe amor em SP
Um labirinto místico
Onde os grafites gritam
Não dá pra descrever
Numa linda frase
De um postal tão doce
Cuidado com doce
São Paulo é um buquê
Buquês são flores mortas
Num lindo arranjo
Arranjo lindo feito pra você
Não existe amor em SP”


11. Com a perda das pistas na sua busca, Kehinde retorna para Salvador, onde muitos dos seus amigos morreram, partiram ou estão completamente mudados que ela mal os reconhece - como é o caso da separação dos antes inseparáveis Tico e Hilário. Talvez pela busca frustrada, talvez por não reconhecer mais a São Salvador que um dia amara, nossa protagonista decide iniciar um novo ciclo: voltando para Africa. Durante a travessia, uma vez mais se apaixona ao conhecer John, representante de um comerciante inglês que entende as regras de funcionamento do comércio em África. E novamente a vida recomeça, reencontrando amigos em Savalu que ela havia conhecido quando menina - e que, felizmente, ainda se lembravam dela - e retomando àquilo que ela sabe fazer melhor: usar as oportunidades que aparecem a seu favor, da melhor maneira possível. Vocês já ouviram sobre isso em algum lugar?


Metamorfose Ambulante - Raul Seixas - https://www.youtube.com/watch?v=7VE6PNwmr9g


“Eu prefiro ser
Essa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo


Eu quero dizer
Agora o oposto do que eu disse antes
Eu prefiro ser
Essa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo
Sobre o que é o amor
Sobre o que eu nem sei quem sou”


12. A vida em África é carcterizada pelo comércio, pela prosperidade e pea nova família. A vida de Kehinde prossegue, com seus altos e baixos (ainda mais considerando as muitas guerras que acontecem em África), mas sempre seguindo em frente, criando seus filhos da melhor maneira que pôde e ajudando muitos outros a constituírem e protegerem a sua família. Kehinde se transforma na “dona Luíza”, fundando a Casas da Bahia, empresa bem-sucedida de construção de casas. Vira uma comerciante famosa e respeitada, politicamente influente, casada com John e mãe dos Ibejis Maria Clara e João. Uma vida boa e próspera. É nesta época que Kehinde rebate o dito “defeito de cor”, ao explicar com um padre francês que desfruta da hospitalidade da sua casa (assim como muitos estrangeiros e nativos também o fizeram):


“Não tenho defeito algum e talvez, para mim, ser preta foi, e é, uma grande qualidade, pois se fosse branca não teria me esforçado tanto pra provar do que sou capaz, a vida não teria exigido tanto esforço e recompensada com tanto exito. Eu me sinto mais orgulhosa de ter nascido Kehinde do que sentiria se tivesse nascido padre Clement, um bom homem com certeza, mas que se submetia à necessidade de agradar aos brasileiros ricos de Lagos, Porto Novo e Uidá para se estabelecer com segurança e conforto nessas cidades.” (página 853)


Essa é, pra mim, a maior lição que pode ser tirada da história da protagonista: a capacidade de seguir adiante e conquistar tudo o que quis, mesmo sendo negra, mulher e escrava, num Brasil colônia machista, escravocrata e profundamente violento e arcaico. Sem se desesperar nem trair seus valores, dando valor à amizade, ao amor e ao aprendizado, sem nunca esquecer de sua jornada. Vocês já ouviram sobre isso em algum lugar?


Tocando em Frente - Almir Satler - Paula Fernandes e Leonardo - https://www.youtube.com/watch?v=Jb7LTOMJ3Qg


“Ando devagar
Porque já tive pressa
E levo esse sorriso
Porque já chorei demais


Hoje me sinto mais forte
Mais feliz, quem sabe
Só levo a certeza
De que muito pouco sei
Ou nada sei


Conhecer as manhas
E as manhãs
O sabor das massas
E das maçãs


É preciso amor
Pra poder pulsar
É preciso paz pra poder sorrir
É preciso a chuva para florir”


13. Após ser considerada uma empresária bem-sucedida, mediar acordos com reis e ministros, receber missionários de diversos países, conhecer representantes de diversas religiões, estruturar a comunidade de brasileiros (e defender seus direitos, especialmente contra os “selvagens” e interesses comerciais de estrangeiros) enterrar seu marido John, morto por envenenamento (ou seria um feitiço?), criar seus Ibejis, mandando-os para estudar no exterior, morar em Savalu, Lagos, Uidá, conhecer tantas pessoas e ser reconhecida e admirada por tantos em África, Kehinde já no fim da sua vida, recebe a pista final de sua peregrinação. É esta pista, que ficou acidentalmente escondida por mais de uma década, que faz com a “dona Luiza”, já uma senhora de mais de 80 anos, faça sua última viagem - a mais arriscada, dado que já é uma senhora cega e se dirige ao Brasil republicano, afetado por um surto de febre amarela. Onde Kehinde encontra forças para fazer uma jornada tão fatídica?


Roupa Nova -  A Força do Amor - https://www.youtube.com/watch?v=03X8dinHaMA


“Abriu minha visão o jeito que o amor
Tocando o pé no chão, alcança as estrelas
Tem poder de mover as montanhas
Quando quer acontecer, derruba as barreiras


Para o amor não existem fronteiras
Tem a presa quando quer
Não tem hora de chegar
E não vai embora


Chamou minha atenção, a força do amor
Que é livre pra voar, durar para sempre
Quer voar, navegar outros mares
Dá um tempo sem se ver
Mas não se separa”


14. É nesta viagem que Kehinde escreve seu longo relato, para o destinatário mais especial de sua vida. Destinatário, este, que ela nunca encontrou, pois é sem vida que nossa história encontra seu destinatário especial:


Luiz Gama - Coleirinho


“Hoje, triste já não trinas,
Como outrora nos palmares;
Hoje, escravo, nos solares
Não te embala a dúlia brisa;
Nem se casa aos teus gorjeios
O gemer das gotas alvas
— Pelas negras rochas calvas —
Da cascata que desliza.


Não te beija o filho tenro,
Não te inspira a fonte amena,
Nem da lua a luz serena
Vem teus ferros pratear.
Só de sombras carregado,
Da gaiola no poleiro
Vem o tredo cativeiro,
Mágoa e prantos acordar.


Canta, canta Coleirinho,
Canta, canta, o mal quebranta;
Canta, afoga mágoa tanta
Nessa voz de dor partida;
Chora, escravo, na gaiola
Terna esposa, o teu filhinho,
Que, sem pai, no agreste ninho
Lá ficou sem ti, sem vida.”


Seu segundo filho, Omotunde Adeleke Danbiran, conhecido como Luiz Gama, mesmo tendo sido batizado na fé cristã e na fé dos voduns, não conseguiu escapar ao destino da escravidão. Ao ser vendido como escravo aos 10 anos pelo pai, em razão de uma dívida de jogo, acabou indo trabalhar em uma hospedaria em São Paulo, onde permaneceu analfabeto até os 17 anos de idade. Aprendeu a ler através de um hóspede, estudante de direito, que lhe ensinou as primeiras letras. Ao encontrar sua certidão de batismo, o rapaz fugiu e conseguiu conquistar judicialmente a própria liberdade. Assistiu as aulas de Direito como ouvinte e passou a atuar na advocacia em prol dos cativos, sendo já aos 29 anos autor consagrado e considerado "o maior abolicionista do Brasil". Atualmente é considerado um dos expoentes do romantismo brasileiro. Foi um dos raros intelectuais negros no Brasil escravocrata do século XIX, o único autodidata e o único a ter passado pela experiência do cativeiro; pautou sua vida na defesa da liberdade e da república. Faleceu em 1882, 7 anos antes que sua mãe retornasse ao Brasil, em 1889, encerrando sua peregrinação e levando o relato de sua vida. Kehinde sempre soube do quanto seu filho seria especial, mas nunca quis para ele o destino de escravo. Infelizmente, mãe e filho compartilharam a dor da perda, a escravidão e a impossibilidade do reencontro - como ela registrou em seu relato magistral, e como seu filho, Luiz Gama, registrou em seus muitos poemas.

Concluo essa (não tão) breve trajetória sobre “Um defeito de Cor” com a constatação de que sim, há muitas ecos da história de Kehine na constelação musical brasileira. Não acho que seja por coincidência: por mais que sejamos diferentes em nossas origens, formações, personalidades, de alguma forma todo brasileiro é um pouco Kehine/Luísa - e isso, é claro, tinha que aparecer em nossas canções. Na nossa peregrinação, na nossa culinária, na nossa arte, nas nossas paixões, na nossa dor pelas perdas, na nossa revolta contra as injustiças, no nosso carinho pela família e amigos. Não é de se espantar que tantas músicas, em seus mais variados ritmos e momentos históricos, espelham um pouco da trajetória da protagonista desta história. Afinal, é no território onde ficção e realidade se encontram que as Artes vão bebericar para inspirar nossos muito artistas. Quem sabe se as narrativas, as músicas e as poesias nada mais sejam do que formas mais interessantes de contar aquilo que a História parece, por vezes, não saber?

sábado, 10 de setembro de 2016

"Todo Camburão Tem Um Pouco de Navio Negreiro"



Caetano e Bethânia recitam/cantam O Navio Negreiro, de Castro Alves

Apesar das quase 1000 páginas do livro Um Defeito de Cor, da Ana Maria Gonçalves, a leitura avança rapidamente. O início é bem violento, com “cenas fortes”, e confesso que tive vertigem ao ler o ataque dos selvagens à família da Kehinde. Fiquei curiosa em ler sobre a história da África, suas guerras e sobre como surgiu o tribalismo.

Quando Kehinde revelou que aqueles escritos eram uma “carta” para o filho desaparecido passei a considerar a narrativa em primeira pessoa um equívoco, porque comecei a me incomodar com a impossibilidade de tantos detalhes serem lembrados. Afinal, tinha sido até ali um livro com descrições minuciosas de conversas, rituais, paisagens, vestimentas, arquiteturas etc, em um volume gigantesco de informação. No entanto, antes da revelação, a primeira pessoa teve papel decisivo na criação de empatia em mim, e o relato da própria Kehinde me fez entender que a escravidão não ocorreu com uma “massa” humana sem rosto e sem alma. CADA pessoa arrancada da África tinha gostos, história, casa, objetos, parentes, amores, sonhos, crenças, rituais, saberes, vizinhos, identidade, assim como eu. E que isso tudo lhes foi extirpado aqui no Brasil, restando somente sentimentos como medo, desespero, saudade, ódio e outros que não me foi possível sentir nem imaginar por não ter estado lá. Foi um exercício muito doloroso.

Mais doloroso ainda foi lembrar que os negros até hoje são vistos como uma massa humana indefinida, e que ainda não enxergam sua identidade, sua história e atiram para matar. Quando a prefeitura impede que ônibus de regiões mais pobres - e mais negras, por consequência - cheguem até as praias com o discurso – apoiado pela elite – de evitar arrastões, indicando que, para o poder público, existe uma massa negra TODA criminosa. Não há espaço para individualidade do negro. Não importa seu caráter, quantas pessoas já ajudou, quanto troco errado já devolveu, quanta violência policial já sofreu, quantas pessoas já viu serem mortas pelo tráfico, quanto medo de bala perdida já sentiu em casa durante tiroteios, quantos dias foi pra escola com fome e teve lá sua única refeição do dia, o quanto lutou para conseguir estudar desnutrido, quantas vezes já foi expulso de restaurantes, mesmo podendo pagar, por estar maltrapilho, quantas vezes já resistiu ao aliciamento de traficantes oferecendo “trabalho”, quantos amigos de infância foram mortos, o quão pouco ganha em seu subemprego, quantas crianças órfãs já ajudou a criar em sua comunidade etc. Nada disso importa, somente a cor da pele.  É como se ela disparasse uma mensagem contra si própria: “Atira!”.


Algumas dúvidas que surgiram:
  • Muito mais homens que mulheres africanas eram trazidos para o país. Este arranjo demográfico não-natural teve algum efeito social significativo na população negra cativa da época?
  • Kehinde fala que os escravos evitavam se casar por medo de serem separados em uma venda. Será que isso explica, pelo menos em parte, o baixo crescimento demográfico da população negra cativa?
  • Fiquei curiosa sobre a dita "superioridade” dos muçurumins em relação aos outros negros e gostaria de saber como eles tinham acesso à educação formal em África e os outros não.

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Um sonho de liberdade

Atenção, esse texto contém spoilers.



O livro “Um defeito de cor” tem a dupla função de contar uma história envolvente e ao mesmo tempo abordar questões sociais importantes sob uma ótica diferente daquela que habitualmente se encontra nas obras clássicas sobre o período da escravidão no Brasil.  Sobre os aspectos históricos, a partir do livro pude descobrir várias nuances dentro da condição de escravidão. O escravo que compra a alforria, o escravo de ganho, o escravo ou ex-escravo que tem escravo, o escravo que consegue montar negócios. Curioso pensar nos direitos que os escravos tinham e de como, mesmo nessa condição miserável, parecia haver alguma possibilidade de melhora de vida para eles. Interessante a dinâmica decorrente da existência da ajuda mútua, nos consórcios de alforrias, e também interessante pensar na "exploração mútua".
Um outro aspecto que para mim foi um dos mais positivos e enriquecedores do livro foi a possibilidade de contato com a religião africana, o que nos leva a perceber os acontecimentos a partir de uma outra interpretação do mundo. Embora a personagem, no seu processo de colonização, tenha aderido ao sincretismo com o cristianismo, permanece durante toda a narrativa um jeito meio africano de dar sentido aos fatos. Isso cria um certo misticismo que paira no ar a todo momento da leitura.  Em alguns trechos, inclusive, a narrativa adquire um quê de fantasia. O livro também transmite certo encantamento com alguns aspectos da cultura africana. Percebi o cuidado em descrever os rituais religiosos e achei belíssima a descrição do momento em que a personagem tem contato com a capoeira. Também gostei de saber da existência dos escravos muçulmanos e da discriminação que havia em relação a eles. Aliás, mesma discriminação também relatada na diferenciação que se fazia entre os negros nascidos no Brasil e os africanos.
Agora, permitam-me analisar Kehinde. Primeiramente, vou contar algo que me aconteceu pouco após iniciar a leitura do livro.  Eu fui almoçar com uma amiga psicanalista e falei do livro. Disse um pouco sobre a história da autora e de sua ida à Bahia para se inspirar a escrever. Com a maior naturalidade minha amiga disse que a autora estava descrevendo no livro o que ela gostaria de viver, que o livro era uma projeção do desejo dela. Eu até então não tinha pensado nisso, afinal, nunca tinha passado pela minha cabeça que alguém desejaria ser uma escrava. Mas depois percebi que fazia todo o sentido.
Apesar de ter sido escravizada, a maior característica da personagem é ser livre de espírito.  É curioso como ela nunca deixa de acreditar que o melhor vai acontecer.  Mesmo com um trauma terrível na infância, em nenhum momento ela se vê limitada ou fadada a sofrer. Sua autoestima é elevada, ela aproveita todas as oportunidades de aprender e tem ótimas relações interpessoais, desperta a confiança das pessoas  facilmente. Embora ela cite já no meio do livro não ser bonita, tem facilidade de conquistar os homens que deseja. Mas ela não se apega emocionalmente aos parceiros e não é romântica.
 Os filhos também não tiram sua liberdade. Mesmo quando ainda são muito pequenos, ela conta com ajuda para cuidar deles, seja da sinhá que deseja "adotar" seu primeiro filho, seja de um marido zeloso e cuidador que, mais do que dividir tarefas no cuidado às crianças, na verdade assume esses cuidados. Também em relação aos filhos, mesmo com a morte de um e o sumiço de outro e mesmo nunca deixando de buscar o filho desaparecido, ela descreve algumas passagens de vida como anos muito felizes. Ou seja, a personagem não se deixa abater por esses traumas.
Uma coisa que me fez rir sozinha, pensando como minha amiga psicanalista acertou em cheio, foi descrição da personagem Ressequida. Qualquer pessoa acharia muito ruim ser trocada por outra, mas a autora criou a "outra" dos sonhos: feia, infeliz, mal humorada, estéril, que não faz sexo com o amado e ainda por cima só teve a companhia dele por interesse. Assim fica mais fácil sobreviver a um abandono!
Interessante também o empreendedorismo da personagem. Kehinde sai da condição de órfã escravizada e vendida como animal para se tornar uma poderosa milionária africana. Parece que os negócios são a maior fonte de motivação de vida para Kehinde. Graças a eles, ela realiza vários desejos de consumo e poder.  Chamou minha atenção especialmente a parte em que ela justifica seus negócios com um mercador de escravos. A autora reserva uma página para argumentar, em suma, que, se ela não fizesse aquilo, outros o fariam. E assim dá por resolvida a contradição que existe em ser uma pessoa que no passado se engajou em luta armada pela abolição e depois acaba por fazer negócios com mercadores de escravos. Curioso que, se por um lado essa trajetória da Kehinde pode ter o efeito positivo de melhorar a autoestima da mulher negra, que se vê representada na personagem, por outro lado, poderia dar certo reforço ao mito da meritocracia, ao fazer parecer, por vezes, que seria fácil sair de escrava a sinhá. Se bem que, em sua trajetória de enriquecimento, a personagem consegue a ajuda de um casamento com um branco e de um providencial tesouro achado por acaso. O que talvez favoreça menos a ideia da meritocracia e mais a crença no dinheiro como forma de atingir a felicidade.
Bem, resumindo, a personagem é corajosa, de espírito livre e não é dramática, embora os fatos narrados às vezes sejam emocionalmente impactantes por si. Lendo o livro me senti por muitas horas estando na pele de uma mulher negra escravizada, tentando a todo momento conseguir respeito da sociedade apesar de sua origem. Impossível não fazer um paralelo com o preconceito que existe ainda hoje no Brasil. Foi muito interessante se aproximar das vivências dessa mulher negra e se imaginar em seu lugar.  
Isso me fez pensar em como, ao julgar a sociedade, precisamos fazer um esforço de enxergar as classes sociais de dentro. Entender "quem são e como vivem" (#je #sais) os outros nos leva a fazer contato com o que eles sentem e facilita a compreensão de certos fenômenos. Nós, na condição de membros de uma classe privilegiada e de esquerda, tendemos a ter certa dificuldade em compreender como as classes mais pobres aceitam toda a exploração sem se revoltarem. Vendo “de cima”, parece para nós muito fácil apontar motivos como ignorância para isso. A interpretação marxista é que a alienação é a responsável.  E assim, distantes, adquirimos um ar de superioridade em relação aos "pobres coitados alienados e explorados". Mas, quando a gente se aproxima do sentimento dessas pessoas, fica mais fácil imaginar que elas fizeram uma escolha. Elas escolheram viver.  De forma consciente ou não, elas sabem que o inimigo é mais forte e entre lutar ou se render, escolheram se render àquela condição social. E, mesmo com todos os problemas, vão construindo sua vida da melhor forma possível.  Talvez essa seja a grande contribuição do livro, criar empatia com os escravos do passado e seus herdeiros do presente.
Gostei muito do livro e me sinto grata por ter tido a oportunidade de lê-lo. Além de ter aprendido muito com o livro, foi uma leitura agradável, embora em alguns momentos a narrativa tenha adquirido um ritmo menos empolgante. Estou curiosa para saber qual dos muitos aspectos interessantes do livro vai ser enfatizado por cada um.


País Rico É País Sem Pobreza

(minha cópia de Um Defeito de Cor, que tem um defeito de cor, provavelmente provocado por Iemanjá, minha mãe, que sentiu ciúme de eu andar por aí carregando um livro tão Oxum)


Um Defeito de Cor é um livro grande, mas condensado. Condensa várias das histórias possíveis que um escravo pode viver, seja na saga da personagem principal ou nas veredas de outras personagens.

O livro é todo emocionante, desde o começo. A história de sua infância na África, antes mesmo da captura para ser vendida como escrava mostra quão dura e difícil a vida era lá naquela época, dando uma ideia de que ainda pode ser assim, daquele mesmo jeito em alguns lugares.  No entanto, em graus diferentes, os núcleos opressivos ali colocados permanecem. Sucessivas derrotas pela força, a morte dos parentes, o abandono dos pais e dos homens, Kehinde sofre desde a infância as marcas de ser mulher, de ser africana.

Àquelas injustiças outras vão se somando, e se for comentar todas aqui, o textão vai ficar insuportável. O livro me faz lembrar que a vida não é nada justa, e que mesmo as pessoas, que são quem poderiam torná-la ao menos um pouco mais justa, não o fazem.

Algumas descrições políticas são interessantes, porque muito pouco se fala, ou não com a profundidade adequada, por exemplo, das rebeliões da Bahia. Mas no campo da História, o que me chamou mesmo a atenção foi a presença brasileira na África, não fazia ideia da importância dos retornados brasileiros na inclusão da África na globalização. Buscando confirmar estes fatos em fontes que não um romance, me deparei com este lindo artigo de um não menos lindo autor aqui. Vale a leitura.

Apesar de achar que o livro fica bem chato nas descrições detalhadas sobre as festas ou os rituais, especialmente com os muitos nomes que eu achei parecidos, certamente gostei de ter mais contato com toda a cultura daquele pedaço da África e mesmo deste pedaço da África aqui no Brasil.

O livro também aponta vários casos da famigerada “vista grossa” e do jeitinho brasileiro — que bem poderia ser africano, francês ou inglês. Que proíbe o tráfico, mas ele ainda acontece e lucra-se com ele. Que proíbe o padre de casar, mas ele casa. Que diz que proíbe a escravidão por motivos humanitários, mas é para ganhar mais dinheiro. Que impõe o livre comércio, que leva a democracia na base da porrada, que exige pagamento de juros e corte de investimentos. Que muitas leis e muitos discursos na verdade escondem um subtexto absolutamente oposto.

Do ponto de vista econômico, o livro me levou um pouco a pensar a geração de valor. Pelo que entendi até agora das minhas leituras em Economia, no comércio o valor que se gera é quando alguém trabalha para dar valor a alguma coisa que é possuída por outro. Por exemplo, eu pego um sujeito na rua e vendo o trabalho dele em forma de escravo, e enriqueço com isso. Fala-se do ciclo do açúcar, dou ouro e do café na História do Brasil, mas pouco destaque se dá ao ciclo do tráfico de escravos, que permeia todo esse processo. Quem tinha uma fazenda de cana no século XVII pode ter ficado pobre no XVIII, mas não quem vendia escravos. Muito do dinheiro que se gerou e se acumulou em África e na outra margem do Atlântico passou pela venda de pessoas, como hoje passa pela venda da força de trabalho. No ponto do livro em que me dei conta disso, de que muito provavelmente antepassados meus traficavam escravos (ou já foram escravos, ou tiveram escravos) senti um aperto no peito e na garganta, a vergonha atávica e a angústia de estar num mundo onde isso aconteceu e acontece (guardadas as devidas proporções). 

A própria Kehinde ganha muito dinheiro explorando o comércio de armas na África, provavelmente o mais lucrativo hoje, e o segundo mais lucrativo no século XIX. Mesmo seus princípios de não traficar escravos são flexibilizados quando ela tem de negociar com traficantes. E enriquece assim, além de com outras atividades. Apesar de haver algumas marcas da época atual na construção da personagem, que a fazem parecer “à frente de seu tempo”, quando ela se refere aos africanos que de lá não saíram como "selvagens", assume a posição de seus exploradores, os europeus, que aplicaram este conceito a todos os povos não-europeus que encontraram.

Dentre as muitas formas de racismo, injustiça e preconceito que aparecem no livro, destaco o Hilário. Ele enriquece, passa a tratar mal os empregados (pretos pobres), mas se humilhava frente aos brancos da sociedade burguesa. Este ponto é crucial, pois talvez seja o que menos tenha mudado. Por mais que se argumente que ainda há resquícios de escravidão no Brasil, ou que ela tenha assumido diversas formas disfarçadas, essas formas nada mais são do que isso, espectros, restos liofilizados do que era a escravidão no século XIX. No entanto, os tentáculos da escravidão permanecem e este especificamente talvez com poucas modificações. Quando vemos as reações raivosas sobre cotas raciais, é a casa grande se manifestando, como já foi tão bem colocado em vários espaços. Há uma impossibilidade, um impedimento, na expansão do que se vê como próximo, como kin em inglês, porque há abismos por todo o lado. E, como é muito mais fácil se solidarizar com o que nos é próximo, quanto menos próximos houver, menor o sentimento de solidariedade social. Fica impossível cobrar que alguém rico-senhor entenda que o país precisa reduzir a faixa de pobres-escravos. Por isso defendi o lema da primeira administração Dilma, “país rico é país sem pobreza”. Pode parecer óbvio, mas não é.

Os estratos sociais brasileiros continuam, a meu ver, subordinados ao enquadramento da lógica da escravidão. Mesmo com o desenvolvimento de uma classe média importante (não tão significativa quanto no G7, mas mesmo assim importante), a lógica dual das classes permanece; há somente senhores e escravos. No concurso para cidadão brasileiro, só há vagas para essas duas posições. O interessante é que muita gente — talvez quase todo mundo — tem duas matrículas, é senhor aqui e escravo ali. Parece uma fôrma cognitiva, um imprinting*, que anula qualquer outra maneira de se relacionar socialmente. Por qualquer lugar onde se vá estão os abismos. A médica humilha a recepcionista que humilha o cara da limpeza. Há uma transmissão desse modelo, talvez um pouco como reprodução de uma marca ancestral, uma espécie de vodum de cada família brasileira que foi assentado por todo o país. Impossível não fazer referência a casos de pessoas que sofreram algum tipo de abuso ou assédio, em especial na infância, e que reproduzem estes comportamentos mais tarde ou em outras situações de sua vida.

As referências políticas feitas pela Kehinde deixam o livro menos verossímil, com um tom didático meio novela de Manoel Carlos, com a diferença que com a Kehinde eu de fato aprendi alguma coisa. E, talvez por acontecer no período em que ela estava na África, há poucas menções ao processo político que levou à abolição da escravatura no Brasil. E é isso que eu acho que devemos estudar um pouco mais, pois envolve o entroncamento das complexidades sociais, políticas, culturais e econômicas do nosso país.

*imprinting – é um termo em inglês que se usa em biologia para designar uma impressão cognitiva que permanece. Por exemplo, assim que nasce um patinho, numa curta janela de tempo, o que quer que ele veja se mover durante aquele intervalo ele vai seguir a infância toda. Depois de fechada essa janela, fica o imprinting. É assim que ele segue a mãe. Se por acaso não houver mãe, e houver, digamos, um boneco se mexendo, é esse boneco que os patinhos vão seguir durante a infância.



segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Afrológicas

Porte du Non-retour - Uidá, Benim

Acabo de ler “Um defeito de cor”, de Ana Maria Gonçalves, que já se tornou uma das coisas mais importantes que li na vida. Este livro é um romance histórico e, portanto, tem partes verdadeiras e elementos ficcionais, sempre muito verossímeis. Ele conta a história de uma menina-moça-mulher-senhora chamada Kehinde, uma africana que sai da Costa da Mina, do antigo Reino do Daomé (em território onde hoje se situa o Estado de Benim), e que chega ao Brasil na condição de escrava aos dez anos de idade.

O livro tem quase mil páginas e funciona como um panorama da escravidão no Brasil no século dezenove. Através da protagonista, e também dos personagens coadjuvantes, é possível ir montando uma espécie de mosaico de possibilidades e de trajetórias possíveis para um negro escravizado no Brasil.

Muitas das vezes, irrompi em lágrimas durante a leitura, especialmente nas páginas iniciais, mas também em alguns momentos no meio do livro e no final. É um livro tão bonito, mas tão bonito, que é difícil falar sobre ele a partir de uma abordagem historiográfica sem privilegiar os aspectos estéticos. E, diferente de quase tudo que temos lido até aqui, este livro é um romance e, portanto, acho relevante ter uma preocupação com possíveis spoilers. Mas tentarei ser breve em relação às minhas impressões, elencando alguns pontos principais a serem explorados sobre esse romance bastante rico.

O primeiro deles, certamente, um dos pontos a ser marcado por todo mundo que o leu, é a crueldade da escravidão. Trata-se de uma obviedade. É óbvio que a escravidão foi uma instituição deplorável e cruel na história do Brasil (mas é sempre importante reforçar o óbvio em tempos de ‘escola sem partido’). Mas a gente sabe por alto da crueldade, a gente não a vê, não a sente. Com alguma frequência vejo pessoas comparando a escravidão negra ao holocausto judeu. Essa comparação pode ser facilmente apontada como descabida (e muitas das vezes o é), mas é possível ver similitudes entre um processo e outro, especialmente na forma como o respeito à dor é vivenciado na posteridade. Enquanto na Alemanha existe o Museu do Holocausto e enquanto Hollywood explora essa temática em uma miríade de filmes e mais filmes que tentam impingir a dor judia da Segunda Guerra a todo e qualquer espectador, por aqui, temos o Cais do Valongo, arqueologicamente revisitado, mas culturalmente pouco sentido, pouco experimentado. Temos também o Museu do Negro, em São Paulo, que é muito bonito, e muito necessário, mas não é o Museu da Escravidão. Penso que este é ainda um museu que está para nascer (e pode ser até que já exista e eu não conheça). Mas imagino que deva ser algo forte, impactante, com a experiência de entrar em um navio negreiro e sentir os odores, os gritos, algo impressionante mesmo. Na Praça Mauá, este neolugar do Rio de Janeiro que acaba de sofrer uma Pereira Passificação, existem dois museus construídos recentemente – o MAR (Museu de Arte do Rio) e o Museu do Amanhã. Neste lugar tão caro à história negra carioca e brasileira, nenhum museu sobre a escravidão, sobre a negritude, sobre as religiões afro-brasileiras, nada. No máximo, ouvi dizer que há uma estátua recém-inaugurada do João Cândido, o marinheiro negro, mas ainda não sei onde ela está. O projeto megalômano de Santiago Calatrava contribuiu para transformar o Museu do Amanhã no provável museu mais visitado do Rio. O problema é que olhamos para o amanhã sem entender e sem aceitar o nosso ontem. Não só a escravidão, mas se pensarmos também na ditadura militar, cuja Comissão Nacional da Verdade foi fraquinha e pouco deliberativa, a impressão que fica é a de que somos um povo muito abnegado em relação à própria história. A ânsia em ser esse país do futuro que nunca chega faz com que a gente vá atropelando tudo, passando por cima das compreensões do que somos e das dores que sentimos e que herdamos. Estamos sempre ansiosos em virar a página, e é por isso que somos capazes de lotar o Museu do Amanhã diuturnamente, mas essa página que todo mundo quer virar faz parte de um livro que quase ninguém está lendo.

Por falar em livro, permitam-me voltar a ele. Penso que nunca li nada mais feminino do que este livro (talvez “A hora da estrela”, da Clarice Lispector, mas só talvez). “Um defeito de cor” conta a saga de uma mulher negra no Brasil, e foi escrito também por uma mulher negra no Brasil. Neste livro, vemos a vida sempre através dos olhos de uma mulher. Além da Kehinde, as outras grandes personagens do livro também são mulheres, como a Esméria, no papel social de mãe, a avó africana, as amigas Claudina e Adeola, etc... É através desses olhos que vemos a relação de maternidade, a relação com os homens, a relação com as outras mulheres.

Por falar em maternidade, lembrei muito da minha mãe com esse livro. Acho que ele me ajuda a compreendê-la melhor. Foi minha mãe quem primeiro o leu e me indicou, mas, além disso, vejo nela um pouco da Kehinde, que tem toda essa coisa de ser uma mulher lutadora, que vai atrás da própria história e vai abrindo caminhos. Minha mãe, assim como a protagonista da história, vai resolvendo e direcionando a vida daqueles que a cercam, enquanto toca a própria vida. Até terminar o livro, sempre entendi esse ‘ir resolvendo e direcionando a vida do outro’ a partir de um julgamento que enquadrava essa conduta como ‘não deixar o outro escolher seu próprio caminho’, ‘personalidade controladora’, ‘invasão de privacidade’, etc... Agora, finda a leitura, percebo que esse comportamento (além de uma característica intrínseca de sua própria personalidade) está mais associado às redes de ajuda mútua, em que cada um vai cuidando um pouco de todos. Quem pode mais, cuida mais, quem pode menos, é mais cuidado. Essas redes de ajuda mútua são mais valorizadas por quem é ou por quem já foi mais pobre, onde a presença do Estado é menos garantidora dos direitos fundamentais, e onde a pessoa que está ao lado é, muitas das vezes, a única que pode fazer diferença na sua dignidade e na sua condição de vida. Além disso, esse senso de comunidade, além de um aspecto cultural associado à pobreza, parece ser uma noção especialmente importante para a comunidade negra brasileira, que teve que se virar de forma comunitária após seus integrantes chegarem escravizados oriundos dos navios negreiros partidos da África. Nesse sentido, quando julgo os aspectos da vida comunitária como invasivos, percebidos na minha mãe ou em qualquer outra pessoa, penso que acabo por me enquadrar num padrão de vida mais eurocêntrico, em que a minha vida é importante individualmente, em que a privacidade é um valor inalienável, em que a minha vida acontece na comunidade, e às vezes até com a comunidade, mas sendo sempre possível separar ‘vida’ e ‘comunidade’, quando as coloco em duas palavras e sei mais ou menos o que uma quer dizer independentemente da outra. Por isso, apesar de ter a pele mais clara, acho que a minha mãe é mais negra do que eu, e essa dicotomia comunidade x individualidade, provocada pelo livro da Ana Maria Gonçalves, é um dos elementos que reforçam a impressão que tenho de mim mesmo como um negro embranquecido.

Ser negro e ser branco compõem experiências de vida muito diferentes, especialmente no Brasil, onde a marca da cor e das diferentes nuances sempre se faz sentir de maneira muito marcada. Nesse sentido, uma das passagens do livro que mais me fizeram pensar foi uma cena bem no início, em que a protagonista brinca com a sinhazinha, ambas mexendo numa boneca. A sinhazinha coloca suas vontades ao brincar com a boneca e, por haver uma relação senhor-escravo entre a sinhazinha e a Kehinde, é esta a vontade que prevalece. Mas à Kehinde também é dada a oportunidade de dizer o que quer fazer com a boneca, ao que ela, portanto, diz, mas a sinhazinha faz com a boneca o exato oposto do que ela pediu. Então, numa manobra bastante astuta, e talvez pela primeira vez percebendo efetivamente como as coisas deveriam ser conseguidas a partir de sua nova condição de escravizada, a Kehinde entende que para conseguir o que quer, ela deve pedir o exato oposto de sua vontade. Mas por que essa passagem é importante e por que ela me tocou em particular? Porque penso que ser negro (em especial no Brasil) é, de certa maneira, viver sob a égide de uma lógica torta, completamente própria, e que desafia o tempo todo a racionalidade. Durante muitos anos (e até hoje) sou instado a não raspar a cabeça, porque isso me ‘torna’ mais negro aos olhos da sociedade. Portanto, sou percebido como mais perigoso. Daí decorre que o risco que opto por correr ao andar pela rua tem a ver com o meu corte de cabelo, o que não faz nenhum sentido. Existe um medo muito grande de ‘ser confundido com bandido’, o que um jovem branco certamente nunca pensou. Logicamente, um jovem branco pode argumentar que não existe isso de ser confundido com bandido, que para que alguém seja enquadrado como criminoso tem que haver flagrante delito ou julgamento por um tribunal, etc, ou de que ninguém deve precisar provar nada para ninguém, que são os outros que têm a responsabilidade de provar a sua culpa, etc... A lógica da presunção da inocência não existe direito quando se é negro, de forma que é preciso, o tempo todo, se preocupar em prová-la. 

As coisas ditas no parágrafo anterior certamente não são novidade para ninguém, mas o ponto que eu queria marcar é que ser negro não é apenas uma diferença de tom de pele. Não é sequer uma diferença de acessos ou de carga de preconceito. Ser negro é viver em uma lógica irracional, e de certa forma aceitá-la, entendê-la e negociar com ela, o tempo todo. É por isso que ser preto é tão diferente de ser branco, quase ao ponto da incomunicabilidade. Esse é o desafio que deveria ser proposto à Márcia Tiburi (que tanto promove o diálogo), que é como estabelecer o diálogo e as tais pontes entre as pessoas se o que as difere não é tão-somente uma disputa de posições, mas uma vida inteira engendrada através de signos e códigos que não são intercambiáveis. Como, finalmente, acessar o Outro a partir de meu penhasco se só o que consigo ver é o abismo sob meus pés, procurando do lado de lá um outro planalto, mas ignorando completamente a quantidade de vida microscópica existente no ar, a fauna das aves, os mamíferos que habitam o chão lá debaixo que não consigo ver, as espécies vegetais que crescem no meio das pedras, o campo eletromagnético que corre por entre todos esses seres, se o Outro na verdade pode ser cada uma dessas coisas; ou seja, como aceder a esse Outro, se não consigo vê-lo, entendê-lo, descobri-lo inclusive perto de mim, se do meu ponto de vista, que sempre procuro no Outro aquilo em que de alguma forma eu reconheça algo do que também sou, tudo permanece no campo do obscuro e do insondável? Para onde, finalmente, deveríamos erguer essas tais pontes?

Talvez, se pudéssemos erguê-las para a África, poderíamos entrar em contato com uma parte de nós que é sempre ignorada. Ao final do livro, quando a protagonista retorna ao continente africano, somos apresentados a uma parte de nossa história que poucos conhecem: a presença dos brasileiros retornados à África. Pretos saem de sua terra natal como escravos em direção ao Brasil, e procuram se manter africanos nas religiões e nas tradições, como uma prova de resistência, de não-embranquecimento. Mas, ao voltar para a África e levar para lá, de volta, o que se viveu do Brasil, eles são encarados como brasileiros (ainda que sejam africanos de nascimento). Eles carregam costumes brasileiros, trazem consigo a religião católica, o modo de se vestir das pretas da Bahia, o modo brasileiro de se construir casas. E se estabelecem em bairros brasileiros, formando comunidades de prestígio, e com algum grau de influência nos poderes locais. Em algum momento da história, fiquei com a impressão (que pode estar equivocada) de que esta comunidade de brasileiros poderia exercer alguma espécie de protetorado no antigo reino do Daomé, como fez a França nesta região que veio a se tornar o Benim e a Inglaterra naquela que veio a se tornar a Nigéria. O fato é que, a despeito da influência local dos brasileiros no Daomé no século dezenove, não fomos capazes de manter a perenidade desse laço, e hoje, nas cidades da antiga Costa da Mina, especialmente no trecho que vai de Uidá a Lagos, há pouquíssima vinculação afetiva, técnica e financeira com o Estado brasileiro. Hoje, não há voo direto do Brasil para o Benim ou para a Nigéria (diferentemente de Angola, com voos saindo do Rio de Janeiro e que, assim, como Moçambique, parecem manter um certo laço afetivo, cultural e econômico com o Brasil, provavelmente por causa da lusofonia). Uma outra coisa que me ocorre em relação a esse fenômeno é a de que a história do povo negro no Brasil é suficientemente desvalorizada para que ninguém saiba esta história dos retornados. Mas já me deparei com longas reportagens sobre a saga e o drama dos dekasseguis, os brasileiros filhos ou netos de imigrantes japoneses que optam por voltar ao Japão, ficando numa espécie de limbo em que não se sentem nem plenamente brasileiros e nem japoneses. Como gostam de dizer por aí, ainda mais nesses tempos olímpicos, a questão dos dekasseguis é costumeiramente colocada como uma ‘história de superação’.

Aliás, uma das curiosidades que tive nesta parte que fala sobre os retornados brasileiros à África foi sobre estas cidades africanas que a protagonista menciona. Lagos é a capital da Nigéria, uma das maiores cidades da África hoje, isso já sabemos. Mas e Cotonu? E Porto Novo? E Uidá? Cotonu é hoje a capital do Benim, cidade costeira do antigo Reino do Daomé. Porto Novo, esta cidade com nome assim mesmo em português, é uma outra cidade importante do Benim. Uidá, cidade na qual a Kehinde embarcou em direção ao Brasil, é mais uma cidade litorânea do Benim, também chamada de Ajudá, por causa do Forte São João Batista da Ajuda. Esta cidade ficou muito tempo sob domínio português, só tendo sido reconhecida pelo governo de Portugal como pertencente ao Estado de Benim em 1975 (a partir de dados da Wikipédia). Mas o mais interessante sobre Uidá é que o porto de onde embarcaram os escravos para o Brasil ficou conhecido como Porte du Non Retour, ou Porto do Não-Retorno, e hoje é adornado por uma espécie de pórtico, belo e triste, que traz à lembrança dos vivos a memória daqueles que jamais retornaram, ou que nem mesmo chegaram vivos ao outro lado do Atlântico.

Os que não retornaram e que, portanto, ficaram no Brasil contribuindo para a formação de nossa brasilidade (se é que isso existe), trouxeram ao Brasil muitas religiões. Se hoje, pensamos apenas no candomblé, e na já afro-brasileira umbanda, é importante lembrarmos dos nkisis, conjunto de práticas religiosas de Angola, e do culto aos voduns, aos eguns e aos egunguns, também originários do mesmo território africano (Reinos de Daomé e de Oyó) de onde vieram os orixás do candomblé. As religiões afro-brasileiras são muitas, mas sempre acabamos por tratar tudo como uma coisa só, em geral no reducionismo do termo ‘macumba’.

Por falar em reducionismo, e já me encaminhando para fechar o texto, gostaria de falar sobre o título do livro, “Um defeito de cor”. Ainda estou sem saber se gosto ou não do título, e acho que esse é um assunto bem interessante para discussão (não o meu gosto, mas os motivos que estão por trás desta escolha estética). Este livro é certamente a coisa mais empoderadora que já li quando se fala sobre a questão negra no Brasil. E o título é bastante provocador, apontando para o fato de que a cor era considerada um defeito (e não uma característica) na época da escravidão; algo a ser corrigido, e não algo a ser aceito. Eu, negro, no século XXI, sei que a cor não é defeito, sei dessas coisas todas. Mas quando abro este livro no ônibus e começo a folheá-lo, sempre fico com medo de parecer racista para aquele que senta ao meu lado. Porque o outro (o outro, o Outro, de quem tanto se fala) só vê a capa e o título, mas não sabe efetivamente o que está contido naquelas quase mil páginas. E embora esta capa possa servir para que ele pondere consigo mesmo se a cor é um defeito ou não, penso que ele pode estar o tempo todo secretamente me julgando, em sua própria razão, pensando “olha lá o cara racista lendo um livro que fala sobre a cor como sendo um defeito”. Como sempre tento pensar exemplos em paralelo para ver se minha paranoia se justifica, me imaginei sentado no mesmo banco, abrindo um livro grosso em cuja capa houvesse uma enorme estrela de Davi, com o título “A religião errada”, que me parece ter uma carga semântica similar a ‘um defeito de cor’. Será que eu seria percebido como anti-sionista pela pessoa ao meu lado? Será que daria ao outro a possibilidade de me abordar dizendo “desculpe interrompê-lo, eu vi seu livro e queria dizer que não existe religião errada”, ou “desculpe incomodar, mas cor não é defeito”.

O título do livro me levou a esse tipo de pensamento praticamente todas as vezes em que precisei me sentar ao lado de outra pessoa, especialmente se esta pessoa era preta. Quando era preta e parecia rica e culta (com cara de professora/aluna da PUC), pensava que este livro, a despeito de seu título, era uma espécie de troféu no meu julgamento, porque ela certamente saberia do que se tratava, já leu ou já teria ouvido falar, e me veria como alguém realmente empenhado na luta contra o preconceito, uma pessoa empoderada. Entretanto, se a pessoa ao meu lado fosse preta, mas aparentemente pouco estudada e pobre, eu pensava que este livro pudesse ser visto como uma ferramenta opressora, algo que legitimasse e endossasse a experiência daquela pessoa, que muito provavelmente sempre teve sua cor encarada como um defeito pelos que a cercam e, eventualmente, também por si mesma.

Este título dúbio, ambíguo, me faz pensar no binômio opressão x empoderamento, algo sobre o qual sei que preciso pensar e escrever com mais calma, mas cujo mote central é o de que as coisas não são em si mesmas empoderadoras ou opressoras, mas de que a opressão e o empoderamento tem a ver com o uso que se dá a essas coisas, à maneira pela qual, uma vez emitidas, elas cruzam a fronteira da alteridade e, após as turbulências e alterações de rumo na fronteira difusa que nos separa do outro, sempre chegam do lado de lá sem que tenhamos muito controle se a mensagem que foi captada é algo que empodera ou algo que oprime, isto é, de maneira independente da nossa intenção prévia ao emitir uma mensagem para oprimir ou para empoderar.

Mas, apesar dessa dicotomia, o que ficou mais claro para mim após essa questão da percepção quanto ao título do livro é que o racismo, para além de seu caráter mais brutal, no que tem de ofensa, diminuição do outro, negação de sua humanidade, etc, é também algo que está impregnado de sutilezas, algo tão frágil e difuso que torna necessário que a questão da cor da pele, absolutamente estruturante para entender a realidade brasileira, seja pensada em cada objeto que se carrega, em cada passo dado, em cada mirada, em cada metáfora, em tudo que há.


A questão da cor é ubíqua. Pensá-la, também de forma ubíqua, é inescapável.